UM DOCUMENTÁRIO EM PRIMEIRA PESSOA
eron@dvdmagazine.com.br

9 de Junho de 2003

O cineasta Michael Moore se coloca como o narrador em primeira pessoa neste emocionante Tiros em Columbine (2002); o realizador está sempre, em imagem e voz, no centro da cena, sua figura gorda e inquisitiva questiona todos os fatos que expõe: para atingir a intimidade de seu relato, Moore troca a objetividade documental rigorosa por uma visão mais abertamente subjetiva; para melhor chegar ao público, despreza o tom seco dos documentários, preferindo uma linguagem que, apesar de seu caráter jornalístico, está mais próxima dos processos ficcionais de narrar.

Partindo do episódio, ocorrido em 1999, em que dois estudantes duma escola do Colorado promoveram uma chacina no local de estudos, Moore navega por vários fatos para documentar a obsessão do homem americano por armas e a contundente violência da sociedade ianque. Um dos pontos altos da abordagem de Moore é revelar, num rol histórico, que os Estados Unidos são os promotores da violência no mundo, é a partir da poderosa nação que o ânimo bélico se espalha para o Chile, Vietnã, El Salvador, Kosovo, Iraque, voltando-se para suas origens no atentado terrorista de 11 de setembro de 2001 (afinal, foi a CIA quem treinou Bin Laden para liquidar com os russos); neste aspecto, Tiros em Columbine é o mais antiamericano dos filmes americanos, o de visão mais crítica sobre o próprio país – sem camuflagens. Outra investigação curiosa é a ida ao Canadá em que se evidencia ainda mais a belicosidade americana como a maior do mundo. Momento perigoso é a entrevista com o ex-ator Charlton Heston, ardoroso defensor da belicosidade e racista que se esforça por disfarçar-se.

Por vários motivos, Tiros em Columbine é um filme necessário nestes tempos de Matrix.

Por Eron Fagundes