Notícia do TERRA:

Jorge Ben Jor é o protagonista de um dos melhores acústicos já produzidos pela MTV - mérito dele, é bom ressaltar. Depois de três anos de negociação com o cantor carioca, foram os filhos de Jorge que o convenceram a gravar o especial, que chega nas telas da emissora nesta sexta, às 22h30, e deve ser reprisado inúmeras vezes - além de poder ser encontrado em CDs e DVDs. Nele, as células musicais de dois compassos sincopadíssimos que caracterizam a música de Ben Jor estão na pinta, contundentes, apesar dos poucos ensaios: "Não tivemos nem uma semana para preparar o trabalho, foram quatro dias. Eu disse para os músicos: 'Não podemos errar, mas se for para errar é para errar legal'", brincou o cantor em entrevista logo depois da exibição do programa em um telão para os jornalistas.

Jorge queria fazer um acústico diferente de todos os outros, para compensar o fato de estar, mais uma vez, revendo essas músicas: "Realmente o acústico não estava nos meus planos", confessa. A maneira que achou para fazê-lo interessante foi tocar um violão com 12 cordas, algo que ele ainda não havia visto nos outros especiais. Para quem não está tão por dentro do instrumento, ele é composto das seis tradicionais cordas somadas a outras seis, de espessuras diferentes, o que dá uma leve impressão de um violão dobrado. Para complicar, Jorge usa uma afinação toda especial dele, com Fás sustenidos, em Filho Maravilha, Que Maravilha, Mas, Que Nada, Os Alquimistas Estão Chegando, entre outras. O resultado só vai soar tão inovador assim para músicos, de resto é um acústico como os demais.

As bandas

Bem pensado, o programa uniu dois grupos do cantor: a já manjada banda do Zé Pretinho e a antiga Admiral Jorge V, sendo que esta última Jorge teve de resgatar alguns músicos da tranqüila aposentadoria em Minas Gerais. A questão que logo pinta na mente é: por que o acústico não tem músicas novas de Jorge? Na verdade, teve uma música nova no especial, mas Jorge a vetou: "Nós tocamos e não ficou boa. Houve falta de ensaio, muitos erros. Ela tinha de ficar certinha". Não ficou, não foi para o CD, que aliás são três: uma versão com o show completo e outras duas com Jorge e cada uma das bandas. Mas o compositor continua distribuindo novas canções para outros intérpretes, como as que remeteu para Paula Lima e Elza Soares, recentemente. "Tenho muita coisa nova para mostrar", avisa. O perfeccionismo do cantor é tanto que ele só bota o acústico na estrada se for com os 40 músicos que contou na gravação do programa, com naipe de cordas, metais e duas bandas. Dependendo da repercussão desse novo trabalho - e vale lembrar que o acústico de Cássia Eller mudou sua carreira -, Jorge pode finalmente ganhar o lustro que faltava em sua importância musical histórica. Ele mesmo lembra que passou por três movimentos: a Tropicália, a Jovem Guarda e o primeiro movimento, que participou sozinho, segundo suas próprias palavras. "Os críticos e produtores não sabiam qual era meu gênero. Quem era do samba não entendia o meu samba, então tive de gravar com uma banda de jazz em Samba Esquema Novo", afirma sobre o disco de 1963 em que aparece na capa sentado no ar com um violão. O álbum, aliás, foi relançado em CD por sua antiga gravadora e nem sequer consultaram Jorge, o que o deixou chateado.

Mas o cantor e compositor de 60 anos continua com sua malandragem serena, quase desavisada. Fala pouco, até brinca, mas não parece deixar os outros domarem sua carreira. Ele diz que um novo disco de inéditas só depende da gravadora e que continua estudando ritmos, melodias como sempre fez, acompanhando os diversos segmentos musicais. A filosofia de Ben Jor é simples: "Procuro entender a tudo e a todos através da música." Mas e para entender Ben Jor? Bom, um começo tardio é ouvir o Acústico MTV Jorge Ben Jor, que não é um caça-níqueis de final de carreira qualquer, não - é música boa.