ECOS DE GRAMADO: RUTH E LÉA

Nem era preciso estar lá para aplaudir a eleição de duas grandes damas de nossa república, Ruth de Souza e Léa Garcia, para receberem o Kikito de Ouro de melhor atriz pelo filme As Filhas do Vento no Festival de Gramado encerrado no sábado passado. Assistimos à cerimônia pela transmissão da TVE carioca (que está com sérios problemas de áudio - quase zero - nas retransmissões para São Paulo). Bastou um pequeno trecho da fita, passado numa igreja, em que ambas têm um encontro (ou reencontro) silencioso, para demonstrar o grande talento, a grande força de presença. As duas estrelas começaram no cinema pela mão de diretores estrangeiros. Ruth em Terra Violenta (1948), dirigida pelo americano Edmond Bernoudy, adaptação do livro Terras do Sem Fim, de Jorge Amado e protagonizada por Anselmo Duarte e Maria Fernanda. Léa Garcia foi dirigida pelo francês Marcel Camus em duas fitas rodadas no Brasil: Os Bandeirantes e Orfeu do Carnaval. No teatro as duas começaram no Teatro Experimental do Negro, de Abdias Nascimento, em 1945. Léa fez mais de uma dezena de filmes, incluindo Ganga Zumba e Quilombo, ambos de Cacá Diegues. Foi a antagonista em Escrava Isaura (1976), a telenovela de Gilberto Braga baseada no livro de Bernardo Guimarães. Na segunda versão de outra telenovela, Anjo Mau, era a mãe biológica de Luísa Brunet. Léa é uma dessas atrizes que dizem tudo apenas com o olhar, e o olhar de Léa Garcia é extraordinário. Ruth foi a primeira estrela negra do cinema brasileiro, especialmente na Vera Cruz: o ponto alto, a escrava de Sinhá Moça, com o prêmio Saci, de OESP e quase outro no festival de Veneza, onde o filme foi apresentado.

No teatro fez peças de Eugene O`Neil, William Faulkner, Nelson Rodrigues (Vestido de Noiva), Vinicius de Morais, para citar só alguns. E novelas, a mais recente O Clone, em 2001. A Coleção Aplauso, da Imprensa Oficial, a imortalizou em Ruth de Souza - Estrela Negra - livro-depoimento de Maria Ângela de Jesus.

E que As Filhas do Vento, o filme delas, chegue logo a nossos cinemas!

Carlos M. Motta