22
de setembro de 2005
A
primeira lembrança que me ocorreu foi de “Farinelli”,
aquele filme italiano que contava a história
de um dos mais famosos castrati, cantantes que perdiam
as honras e a carreira quando a Igreja (em boa hora,
digamos) proibiu que os garotos que tivessem boas
vozes fossem castrados para nunca perderem esse dom.
Aqui é muito parecido.
Este
filme inglês, foi roteirizado por Jeffrey
Hatcher, baseado em peça de sua autoria, inspirada
em fatos reais.
Como se sabe desde “Shakespeare Apaixonado”,
antigamente, na Inglaterra particularmente, era proibido
que as mulheres representassem em cena, que fizessem
teatro.
Então os papéis femininos eram interpretados
por atores, treinados desde pequenos, para os maneirismos
e comportamento femininos, e que por conseqüência
com freqüência se tornavam homossexuais
(encontrando também seus patronos, quase como
os travestis atuais).
De
qualquer forma, este é o primeiro filme
a tocar abertamente no lado negro do tema, passado
em 1660, quando Edward Ned Kynaston (Billy Crudup) é uma
estrela dos palcos, requisitado para jantares com
nobres, sendo sua especialidade a Desdemona de “Otelo” de
Shakespeare.
Ele existiu mesmo e, foi descrito em diários
da época como “a mulher mais bonita
dos palcos londrinos”.
Até o dia em que o Rei Charles II (Rupert
Everett, que parece se divertir com a composição),
cansado de ver sempre as mesmas performances, mudou
a lei, permitindo a entrada de mulheres (e proibindo
os homens de fazerem papéis femininos).
Ou seja, de uma hora para a outra arruinou a carreira
e a vida do protagonista.
O
roteiro mostra isso muito bem porque juntamente com
os excessos de estrelismo de Ned, a gente vai
acompanhando a ascensão de Maria uma garota
ambiciosa que era camareira (dresser, em inglês)
e que traz novo frescor aos personagens, naturalmente
dando uma de “malvada” (primeiro copiando
o outro).
O papel é feito por Claire Danes, e peço
licença para abrir um parêntese curioso:
durante as filmagens, ela e Billy tiveram um rumoroso
romance que fez com que o rapaz largasse de sua companheira,
a premiada Mary Louise Parker, justamente no momento
em que ela estava para dar a luz ao filho do casal,
o que certamente não contribuiu muito para
sua reputação de bom caráter.
Billy Crudup é daqueles atores chatos que
vêm do teatro e fazem questão de total
imersão no personagem se esquecendo que cinema
quase sempre não precisa disso. A câmera
se encarrega de registrar o pensamento, por isso
que é mágica.
Ela amplifica o que a alma esta sentindo, não é preciso
compor como no teatro.
É
uma pena que o filme tenha passado em branco no exterior,
talvez porque ele seja obrigatório para atores
(é muito sobre a técnica do ator, já que
Ned faz um homem sem imitar uma mulher, ou seja,
sutilezas e ambigüidades que somente atores
irão sacar e discutir integralmente). Já não
me convence tanto a parte romântica da história
(embora seja curioso como o Duque, amante de Ned,
o rejeite quando ele tem que se assumir como homem).
Mas isso não invalida o filme, que é uma
estréia importante (já passou no Rio
há algum tempo).
Para
ser descoberto.
Por
Rubens Ewald Filho