23
de julho de
2005
A
versão original homônima de 71 foi um fracasso em
nossos cinemas, mas acabou virando cult quando foi descoberta
dublada na Sessão da Tarde da Rede Globo. Assim, se tornou
querida e admirada por toda uma geração
de crianças, que hoje mantêm uma memória
afetiva do filme (que na verdade, tem uma direção
de arte de gosto duvidoso, uma produção feia e
pobre e um ritmo lento, com musicas desnecessárias. Sua
maior qualidade, fora a história propriamente dita, é a
interpretação que Gene Wilder deu ao personagem
do dono da fábrica Willy Wonka, dentro de seu estilo nervoso
e neurótico. Sem esquecer a canção “Candy
Man”, que virou sucesso cantada por Sammy Davis Jr.).
Por
tudo isso, esta refilmagem por Tim Burton (ele errou quando tentou
fazer outra refilmagem antes, o tolo Planeta dos
Macacos) é melhor que o original, porque ao
mesmo tempo é mais fiel ao livro de Roald Dahl (que
por sinal, odiava aquela versão). A viúva dele assina como co-produtora aqui) e também
fiel ao estilo e temática do diretor. Arrisco dizer que é o
melhor filme dele desde os outros que fez com Johnny Depp, Ed
Wood e Edward Mãos de Tesoura. Um
exemplo são as simpáticas referências que
contém a filmes como ao monolito de 2001 - Uma
Odissséia no Espaço, a cena do chuveiro
de Psicose, A Mosca, ao Show de Oprah
Winfrey e a vários filmes do próprio Burton. Por
outro lado, tem momentos que são sem dúvida dark,
por vezes macabros (por exemplo, antropofagia), principalmente
na criação que Depp faz do dono da fábrica.
Não achei que tivesse algo a ver com Michael Jackson (embora
Burton tenha dado um banho de computador, ou seja, ele limpou
as rugas e traços de Wonka e das crianças, deixando-as
quase como bonecos). Mas certamente o personagem tem os traços
de um neurótico compulsivo, com problemas com seu pai
e relações afetivas (nesta versão, não
há a história da bala que serve de teste de fidelidade,
comprovando que os meninos não são espiões).
O
roteiro de John August (de Panteras I e Panteras
II e Peixe Grande) tem a inteligência
de seguir quase ao pé da letra o texto de Dahl (que já era
bizarro o suficiente) apenas expandindo em certos detalhes (como
ele encontrou os Oompa-loompas) e principalmente mostrando muito
bem a relação com o pai dentista que detestava
doces que é interpretado pelo grande Christopher Lee (e
só a aparição dele já diz tudo, afinal é raro
termos um ícone do terror vivo como ele). Assim o roteiro
responde certas perguntas (por exemplo, por que Charlie não
vende o talão premiado já que a família é pobre
e precisa tanto de dinheiro). E depois ao final se estende para
ter uma conclusão ampliada e mais bem resolvida. Mas em
praticamente tudo Burton acertou, inclusive na concepção
dos empregados Oompa-Loompas (que é sempre feito por uma
mesma pessoa, Deep Roy e que acaba interpretando meio como lounge
e show, as únicas canções da fita). Aliás,
pela concepção visual do filme já se sente
que o espetáculo é perturbador, não é um
mero filme para crianças.E
também pela entrada de Wonka, detrás da um cenário
em chamas. Seguindo o livro, Charlie é um garoto pobre,
louco por chocolates, que vive com os pais (Helena Bonham Carter,
atual mulher de Burton faz a mãe) e os quatro avós
(todos entrevados na cama). Até que por uma série
de lances, ele é selecionado para uma visita à fabrica
de chocolates, junto com quatro outros garotos.
Tudo é uma
fábula muito clara, na qual a moral da história é enunciada
com toda clareza, culpando os pais por mimarem os filhos (deixando-os
gordos ou insuportáveis), ou os educarem da maneira errada
(para serem por demais competitivos, ou assistirem televisão
com exagero). Vejam que milagre, este é um filme com moral.
Mas não é fácil nem simples. É complexa
como a vida. Com excelente trilha musical de Danny Elfman, fotografia
do francês Philipe Rousselot, A Fantástica
Fábrica de Chocolates, estreou com enorme sucesso
nos EUA (56 milhões de dólares), graças à sua
capacidade de interessar crianças e adultos, fãs
de Burton e da história. Vale à pena assistir.
Por Rubens Ewald Filho
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