09
de agosto de
2005
Assisti
ao filme pela primeira vez numa cabine, mês e pouco antes
da estréia. Detestei tanto que fiquei preocupado. Raramente
tenho uma reação tão visceral
contra um trabalho. Também estranhei a euforia dos colegas, em particular
os fanáticos por quadrinhos que, hoje em dia, lotam as
sessões de imprensa. Resolvi escrever somente quando tivesse
a chance de revê-lo.
Isso acabou acontecendo e pronto, sucedeu tudo de novo.
Agora,
de cabeça mais fria, mais racional, continuo detestando
o filme.
É claro
que, como qualquer ser mortal eu aprecio o visual, curto a brincadeira
do preto e branco com detalhes coloridos
(coisa velha, já em 55, William Wellman fazia isso em “Dominados
pelo Terror”) e o sangue branco. Acho curioso também
a briga que o diretor (e supervisor de efeitos, autor da trilha
musical) Robert Rodriguez teve com
o Sindicato dos Diretores, pedindo demissão quando eles
não permitiram que o autor da graphic novel original,
Frank Miller co-assinasse como diretor. Até porque o filme
era um experimento, Rodriguez apenas colocou na tela aquilo que
já estava nos quadrinhos, ou seja, seguiu fielmente a “decupagem” de
Miller. O que me leva à conclusão óbvia
de que cinema e quadrinhos são coisas diferentes. Aparentadas
certamente, mas com regras diferentes. Filmá-los
ao pé da letra, quando não foi concebido para isso,
acaba tornando o filme repetitivo e cansativo. Por demais falado,
a ponto de irritar. Frases que no papel podem parecer interessantes,
ditas ficam ridículas. Assim como o constante monologar
dos protagonistas, sempre com frases lapidares e irônicas.
Tem
outro aspecto que me incomoda. Uma história dessas
tem clima e pretensões a ser noir, lembrando os filmes
policiais dos anos 40. Mas só na forma porque no conteúdo, falta o básico.
Não basta ser anti-herói e ficar levando tiros
sem morrer, ou dizer que a vida não vale nada e o mundo
não presta. Era algo mais profundo, mais dolorido, era
a própria dor de viver que eles tentavam expressar e que
aqui vira mera explosão de violência e pancadaria.Não
sou evangélico ou fundamentalista, nem mesmo moralista
de qualquer espécie.
Não
suporto mais filmes excessivamente violentos e gratuitos como
este. Mesmo que a violência tenha sido disfarçada
na falta de colorido. Ela nunca é justificada porque moralmente
continuo a achar que o filme não tem nada de positivo
a dizer. No fundo, ela faz a celebração de tudo que é torpe,
vulgar, baixo, podre neste mundo.
À primeira
vista, “Sin City” até parece
começar bem, com um curto episódio, em que Josh
Harnett, péssimo como sempre, faz um assassino profissional
contratado para matar uma jovem Marley Shelton. Um sketch de
cinco minutos, com final surpresa. Mas
por que essa mania de continuar fazendo filmes que mostram,
de maneira simpática, pessoas cuja profissão é matar
pessoas (inocentes ou não), de forma fria, imoral, acima
da lei? Algo já cheira mal. A história seguinte aprofunda o mal-estar com personagens
igualmente repugnantes. O quase sessentão policial (feito
por Bruce Willis, sempre fazendo biquinho) vai tentar salvar
uma menina, que foi seqüestrada por um garotão pedófilo,
que é filho de importante político. É traído pelo parceiro, leva um montão
de tiros e o mínimo que revida é estourar os testículos
do bandido (o que todo mundo acha muito bonito! Algo cheira pior
ainda... Já que vamos perdendo quaisquer valores morais
e aplaudindo a vingança sanguinolenta e justificando a
brutalidade). Mais tarde, fica ainda mais nojento, com um tipo
nefasto (feito justamente pelo Frodo) que é canibal e
devora mulheres (aliás, notem como o filme tem todo um
visual sado-masoquista, principalmente na descrição
das mulheres). Tem um capítulo que ressuscita outro canastrão
que poderia ter ficado esquecido, Mickey Rourke, ainda que irreconhecível
com maquiagem deformante. Por causa de uma prostituta morta,
que mal conhece, ele percorre uma trilha de mortes e feitos absurdos
(nessa altura, a paciência está se esgotando e o
filme fica chato). Até porque o filme não tem qualquer
compromisso com o realismo, é totalmente estilizado. Nem
por isso, deixa de ser moralmente desprezível. Só valoriza,
só propaga valores errados.
De
uma certa maneira, o filme é mesmo uma ilustração
de tudo que está errado com a civilização
norte-americana: é o lixo celebrando o lixo. Não
li o que escreveu Jabor mas, como ele, me surpreendo com a miopia
da crítica brasileira que come os restos do lixo ocidental,
achando que tudo que Tarantino e seus amigos fazem é lindo
(porque Tarantino é creditado como diretor convidado,
que teria realizado a cena entre Dwight - Clive Owen - e Jackie
Boy - Benicio Del Toro - no carro, quando ele tem alucinações.
Antes de chegar o policial. E não a da lutadora Miho como
se poderia supor). Claro que tecnicamente o filme é impressionante,
claro que é curioso vermos certos atores retornando (como
Rutger Hauer), mas não se julga o livro pela capa, nem
por sua diagramação ou fotos.
Como
não se avalia um filme pela fidelidade a outra obra.
Não se tem um bom filme sem que ele tenha também
como ponto básico de sua existência, a valorização
do ser humano, de seus direitos fundamentais. Nesse sentido que
não gosto de “Sin City”, e lamento que as
pessoas sejam tão cegas que não vislumbrem como é pernicioso.
E muito errado como cinema.
Por Rubens Ewald Filho
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