V DE VINGANÇA (V for Vendetta)
 


04 de abril de 2006

Que tal fazer um filme onde o clímax é a explosão do Parlamento inglês? Estariam os autores apoiando um ato terrorista? Mais que isso, até que ponto, cabe perguntar, é justificável um ato terrorista diante de um governo opressor, totalitário, implacável e fascista?

Essas são perguntas que surgem com este filme de 50 milhões de dólares, que os irmãos Wachowski, autores de Matrix, escreveram antes do sucesso e que agora foi filmado pelo mesmo produtor Joel Silver (sua estréia chegou a ser adiada, depois do recente atentado ao metrô londrino, e o filme foi mal na estréia americana).

A polêmica se torna mais acirrada porque a história é baseada numa celebrada graphic novel do cultuado Alan Moore (que também escreveu The Watchmen e The League of Extraordinary Gentlemen) de 1982, que sucede num futuro próximo, à moda de George Orwell e 1984. Acontece que Moore reagiu mal ao filme, quebrando as pernas de seus defensores.

Ele disse: “Preferia não ganhar crédito ou dinheiro. Ver frases e personagens meus deturpados, distorcidos ou mudados, é muito doloroso. Prefiro simplesmente evitá-lo!”

Um detalhe divertido: o mais velho dos irmãos Wachowski, Larry, é travesti e vive nas garras de uma dominatrix! Ou seja, os quadrinhos originais (que não conheço) eram mais radicais. E o filme acaba resultando como uma mistura de O Fantasma da Ópera com A Bela e a Fera, com uma mensagem política duvidosa (principalmente pelo fato de explodir o Parlamento, que não tem a ver com o governo mostrado no filme; ao contrário, é apenas um símbolo - se tivéssemos uma cena dos ditadores naquele lugar talvez ficasse mais lógico explodi-lo).

Também a ingenuidade e inocência da heroína é esquisita (porque ela saiu na rua àquela hora, se sabia que era proibido? Depois, o método para conscientizá-la é igualmente cruel e discutível, ainda que fosse mais explícito no original).

O diferencial de tudo é que esse terrorista, V, não é um herói, não é um bonitão, mas um maluco psicopata que usa o tempo todo uma máscara com a expressão de Guy Fawkes (só os britânicos o reconhecerão, como um terrorista católico do começo do século XVII, que pretendia explodir o Parlamento britânico de forma parecida com a que o filme mostra).

Na história, passada em 2020, ele tem uma força sobrehumana - os flashbacks vão revelando que ele é produto de uma experiência médica governamental que deu errado. E agora se dedica a matar os responsáveis por isso, de maneira crítica e com senso de humor cruel. É quando encontra a garota Evey (Natalie Portman, cujo clímax é uma cena onde lhe raspam a cabeça, o que não muda nada, porque ela tem um belo rosto), que trabalha numa estação de TV dominada pelo governo e que, aos poucos, vai sendo conscientizada à força (outra coisa que parece absurda é o comportamento do diretor do telejornal, feito por Stephen Fry, mesmo ele sendo auto-destrutivo).

Quem dirige o filme não são os irmãos Wachowski, mas o assistente deles na trilogia Matrix, um certo James McTeigue, que conduz o filme com profissionalismo. Outro dado curioso é que o personagem do terrorista, ou seja, V, é sempre mostrado com uma máscara e isso foi demais para o ator que começou o filme, James Purefoy, que não agüentou e largou o trabalho depois de 4 semanas, sendo substituído por Hugo Weaving, que já esteve em Matrix (não fez diferença, porque o trabalho é todo de voz, obviamente dublada posteriormente).

Com todos os prós e contras, ao menos V de Vingança é um filme de ação diferente, contra o totalitarismo.

E com uma mensagem importante: as pessoas não deveriam ter medo do governo, o governo é que deveria ter medo do povo.

Por Rubens Ewald Filho

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