James, A Fera Literaria Que Tardou em Chegar ao Brasil

A fera na selva conta uma historia singela e ao mesmo tempo aguda

12/12/2019 14:03 Por Eron Duarte Fagundes
James, A Fera Literaria Que Tardou em Chegar ao Brasil

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Durante muito tempo, o norte-americano Henry James passou à margem das leituras brasileiras. Admirado pelas sutilezas de sua linguagem e por suas tramas incomuns que buscavam mais a ação mental que física, considerado até por alguns admiradores como excessivamente  artificioso em suas obsessões estéticas (mais, até, que seu precursor em alguns aspectos, o francês Gustave Flaubert), James intimidava o público habitual, por suas obscuridades, e os editores, pelas incertezas quanto às suas possibilidades de leitores. Falo é de seu desconhecimento entre nós. Até que o mineiro Fernando Sabino ousou traduzir, nos anos 80, a novela A fera na selva (The beast of the jungle; 1903), lançada no Brasil pela Rocco em 1985. Depois o que se viu é que o cinema, por James Ivory e Jane Champion especialmente, popularizou, o quanto possível, este autor não-popular.

Menos mal. A fera na selva conta uma história singela e ao mesmo tempo aguda; singela porque trata da aproximação (muito espiritual e só vagamente física, talvez somente espiritual) entre um homem e uma mulher; aguda porque o que o leitor acompanha nas breves páginas da novela é uma engenhosa tergiversação metafísica entre dois seres do mundo, elevando a singeleza da história a inusitada profundidade e tons esquivos e artisticamente matreiros que vêm das filigranas de linguagem de James. A trama de amor (quase irrealizado) de John Marcer e May Bartram é um vaivém de palavras que seduz a todo o momento; desde o início.

A abertura é magistral. O culto inglês pelas propriedades remotas e histórica está na página: Weatherend abre-se ao observador. É um longo parágrafo pré-proustiano: somos convidados a entrar neste labirinto para topar a luz do outro lado. Vamos lá!

(“What determined the speech that startled him in the course of their encounter scarcely matters, being probably but some words spoken by himself quite without intention—spokenas they lingered and slowly moved together after their renewal of acquaintance. He had been conveyed by friends an hour or two before to the house at which she was staying; the party of visitors at the other house, of whom he was one, and thanks to whom it was his theory, as always, that he was lost in the crowd, had been invited over to luncheon. There had been after luncheon much dispersal, all in the interest of the original motive, a view of  Weatherend itself and the fine things, intrinsic features, pictures, heirlooms, treasures of all the arts, that made the place almost famous; and the great rooms were so numerous that guests could wander at their will, hang back from the principal group and in cases where they took such matters with the last seriousness give themselves up to mysterious appreciations and measurements. There were persons to be observed, singly or in couples, bending toward objects in out-of-the-way corners with their hands on their knees and their heads nodding quite as with the emphasis of an excited sense of smell. When they were two they either mingled their sounds of ecstasy or melted into silences of even deeper import, so that there were aspects of the occasion that gave it for Marcher much the air of the “look round,” previous to a sale highly advertised, that excites or quenches, as may be, the dream of acquisition. The dream of acquisition at Weatherend would have had to be wild indeed, and John Marcher found himself, among such suggestions, disconcerted almost equally by the presence of those who knew too much and by that of those who knew nothing. The great rooms caused so much poetry and history to press upon him that he needed some straying apart to feel in a proper relation with them, though this impulse was not, as happened, like the gloating of some of his companions, to be compared to the movements of a dog sniffing a cupboard. It had an issue promptly enough in a direction that was not to have been calculated.”)

A tradução de Sabino, num português não menos delicioso, divide o parágrafo jamesiano em dois. Sabino não é menos sedutor que seu traduzido; talvez quebre o ritmo pré-proustiano: mas capta bem as mesmas águas literárias que oitenta anos antes James punha nas páginas de sua Europa. Vejamos.

(“Pouco importa o que motivou a surpreendente conversa que tiveram durante o encontro, tendo sido provavelmente apenas algumas palavras que ela disse sem qualquer intenção, enquanto os dois iam caminhando lentamente, e ficando para trás, depois de terem renovado o conhecimento um do outro. Alguns amigos o haviam trazido, uma ou duas horas antes, à casa em que ela estava hospedada; os hóspedes da casa vizinha, como ele (o que confirmava sua habitual teoria, segundo a qual não passava de mais um no meio da multidão), tinham sido convidados para o almoço. Depois do almoço, houve muita dispersão, toda ela devida ao que o motivara: conhecer Weatherend e suas preciosidades, aspectos especiais, pinturas, bens de herança, tesouros de todas as artes, que faziam o lugar quase famoso; e os enormes salões eram tantos que os hóspedes podiam vagar à vontade, destacar-se do grupo principal e, no caso daqueles que encaram essas coisas com a maior seriedade, entregar-se a misteriosas medições e avaliações. Podiam-se observar pessoas, sozinhas ou acompanhadas, curvadas sobre objetos pelos cantos, mãos apoiadas nos joelhos, balançando a cabeça com a ênfase de uma reação olfativa. Quando eram dois, chegavam mesmo a misturar sons de êxtase ou mergulhar em silêncios da mais profunda significação, a ponto de haver para Marcher em tudo aquilo um ar de ‘dar uma olhada’, antes de uma venda intensamente anunciada, e que excita ou apaga o sonho da aquisição.

O sonho da aquisição em Weatherend teria de ser realmente muito forte, e John Marcer deu consigo, ante tais sugestões, desconcertado pela presença não só dos que sabiam tudo como dos que não sabiam nada. As grandes salas sugeriam tanta Poesia e tanta História que ele sentia necessidade de se desgarrar dos demais, para se ver bem situado em relação ao lugar, embora seu impulso não pudesse ser comparado, como o olhar cobiçoso de alguns dos seus companheiros, aos movimentos de um cachorro farejando comida. Teve um resultado imediato numa direção impossível de ser prevista.”)

A oração que fecha a novela é John diante do túmulo de sua amada (amor, estranho amor) May. Surge a fera, é verdade, como já se insinuara ao longo da relação das duas personagens. A fera é um pouco um símbolo de nossas inconsequências e nosso medo.

(“His eyes darkened—it was close; and, instinctively turning, in his hallucination, to avoid it, he flung himself, face down, on the tomb.”)

Então, tudo se turva, o rosto dele cai, encostado à tumba dela. Amor, morte e transcendência. É tudo o que James nos oferece. E de que precisamos.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro ?Uma vida nos cinemas?, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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