O tempo pode ser implacável com a ilusão comercial do cinema. O demônio da noite (He walked by night; 1947), dirigido pelo norte-americano Alfred Louis Werker, em plena década de glória das narrativas policiais em Hollywood, é a possibilidade de uma escavação arqueológica na história do cinema que o lançamento em dvd traz. Para quem ama o cinema como um todo, e gosta de observar s mutações de suas linhas de tempo, é salutar uma visita ao passado.
Porém... Em seu Dicionário de cineastas, editado em 1988 pela L&PM, o crítico Rubens Ewald Filho anota sobre Werker: “Diretor norte-americano. No cinema desde 17, principalmente em faroestes. Se impôs com A casa dos Rotschild, mas apesar do pioneiro Fronteiras perdidas (um dos primeiros filmes anti-racistas) está hoje praticamente esquecido.”
Mas... Que custa ressuscitá-lo? Todos os filmes são capazes de viver: basta o olhar e a alma do espectador. O demônio da noite é um dos filmes de Werker mais referidos; seus detratores dizem que ele só funciona porque mais da metade das cenas foi dirigida por Anthony Mann.
Na verdade, O demônio da noite não tem nada de novo ou especial. É um filme de ação conduzido com a decência de estúdio por Werker. Como uma investigação em torno de um criminoso, está longe da sutileza e da profundidade de M, o vampiro de Düsseldorf (1931), a obra-prima do alemão Fritz Lang; o alvo de Werker é outro: falsear uma certa objetividade jornalística do cinema americano de então, uma falsa reportagem que se afasta bastante dos estranhos e enviesados policiais da série negra que circulavam pela mesma época. Aquela voz-over que introduz o espectador na história nas primeiras imagens e depois segue interferindo é um lance ingênuo do cinema da época para dar credibilidade factual ao filme, como se fosse possível reproduzir sem alterações os episódios reais; este artifício está inclusive no começo de Os esquecidos (1950), do espanhol Luis Buñuel: mas enquanto o desenrolar narrativo do filme de Buñuel se desamarra destas peias, O demônio da noite permanece entravado nas palavras do narrador.
Mais do que a direção estereotipada de Werker, é o desempenho de Richard Basehart como o assassino esquivo e a iluminação pessoal de John Alton que conferem ao filme alguma estatura dentro duma possível história do cinema. (Eron Fagundes)