Em 1945 a atriz italiana Anna Magnani (1908-1973) viveu uma mulher alvejada pelos nazistas nas ruas de uma Roma bélica em Roma, cidade aberta (1945), obra-prima do italiano Roberto Rossellini; os gritos do pequeno filho da personagem, correndo para ela, clamando “mamãe, mamãe”, vão ecoar para sempre nos ouvidos do cinemaníaco. Em 1960 ela interpreta um filme americano, Vidas em fuga (The fugitive kind; 1960), de Sidney Lumet, onde sua criatura é assassinada no final por seu marido entrevado e ciumento.
Extraída duma peça de Tennessee Williams, a realização de Lumet exercita o gosto do realizador pelos embates teatrais. Lumet é um dos cineastas-padrão de Hollywood, sem grandes vôos artísticos mas também formalmente competente em seu profissionalismo. Oriundo da televisão e do teatro, Lumet gosta do exercício dos atores e de tentar criar uma tensão a partir dos diálogos. Suas imagens são sempre objetivas, translúcidas. Em cena em Vidas em fuga a italiana Magnani e o americano Marlon Brando se esforçam por carregar o filme nas costas; ela é a amarga dona de uma loja, ele saiu duma confusão de prisão e vem a ser contratado como trabalhador e outros serviços pela mulher: entre a amargura dela e o desconsolo entediado dele oscilam os sentimentos narrativos.
Lumet se esforça por segurar bem a barrar de seu filme, excessivamente dialogado e com diálogos nem sempre cinematograficamente adequados. A seqüência inicial, antes mesmo dos créditos, é um plano-seqüência fixo longo sobre o rosto de Brando onde uma voz-off de um juiz (ou delegado) está indagando a voz-in do ator que logo será liberado pela lei. Vidas em fuga têm tropeços narrativos exaustivos em face de sua construção demasiado teatral; as coisas o mais das vezes não funcionam do ponto de vista fílmico. Mas vale ver o filme por Brando e por Lady Magnani e pela elegância de filmar de Lumet. (Eron Fagundes)