Crítica sobre o filme "Contatos Imediatos do 3º Grau":

Jorge Saldanha
Contatos Imediatos do 3º Grau Por Jorge Saldanha
| Data: 12/04/2008
Antes de Guerra dos Mundos (2006) e até mesmo do terno E.T. - O Extraterrestre (1982), Steven Spielberg realizou o filme definitivo sobre alienígenas - Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977), que chegou logo após Star Wars para consolidar o renascimento da ficção científica no cinema. Portanto, além de ser o primeiro grande projeto pessoal do diretor - tornado possível graças ao grande sucesso de Tubarão (1975) - e de salvar a então Columbia Pictures da bancarrota, o filme abriu caminho para produções do mesmo gênero mas de temáticas diversas, como Alien – O Oitavo Passageiro (1979) e o clássico noir futurista Blade Runner (1982, que assim como Alien foi dirigido por Ridley Scott). Como em seus filmes anteriores Encurralado (1973), Tubarão e outras produções subseqüentes que dirigiu ou apenas produziu, em Contatos Imediatos do Terceiro Grau a trama é centrada numa pessoa comum que, de uma hora para a outra, vê-se face a uma situação extraordinária, que traz reflexos à sua família. É o caso de Neary que, após ver OVNIS enquanto buscava a causa de um apagão, fica obcecado por discos voadores. Ele é despedido e sua esposa Ronnie (Teri Garr), não suportando as esquisitices do marido, o abandona levando as crianças. Roy conhece Gillian (Melinda Dillon), que também enfrenta um grande drama pessoal - seu filho pequeno, Barry (Gary Guffey), foi abduzido pelos alienígenas. Ambos têm visões de uma estranha montanha, para a qual são atraídos.

Além dos segmentos mais dramáticos ou intimistas de que tanto gosta, Spielberg dá um show na condução de cenas progressivamente mais arrebatadoras que levam à apoteose que vemos ao final do filme, utilizando para isso o que de mais avançado havia em efeitos visuais (supervisionados por Douglas Trumbull, de 2001). Efeitos, aliás, que só não levaram o Oscar da categoria porque concorreram com a pirotecnia de Star Wars. Mas um filme extremamente humano como esse não se sustenta apenas nos efeitos, e o diretor contou com um elenco de primeira, e como de hábito foi especialmente feliz na escolha do principal ator infantil. Cary Guffey, no papel do garotinho Barry, foi um achado, assim como o foram Henry Thomas (que fez o Elliot de E.T. ) e Heather O’Hourke (a Carol Anne de Poltergeist). Para interpretar o cientista francês Lacombe, Spielberg convidou um dos maiores diretores do cinema daquele país, o falecido diretor francês François Truffaut - que entrega uma interpretação suave que contrasta com o ambiente repleto de militares e agentes do governo que o acompanham. Ele é, praticamente, um equivalente de Neary, Barry e os demais "escolhidos" que ainda mantém o deslumbramento da infância dentro de si - mas que é deixado pelos alienígenas. Ele é nosso porta-voz quando diz a Roy: "Sr. Neary, eu o invejo". O toque final de emoção é dado ao filme pela antológica partitura de John Williams, à época no auge da fase mais criativa de sua carreira, e que ajudou a estabelecer de vez a "marca" Spielberg de fazer cinema.

Com este filme, entre outras coisas, o cineasta lançou moda ao estabelecer o conceito da "conspiração governamental", que anos depois seria utilizado em séries de TV como Arquivo X e outras produções do gênero. Mas aqui também temos um claro tom religioso que o diretor imprimiu à chegada dos alienígenas. Surgem os "escolhidos", ou seguidores, que são levados por eles; testemunhamos um evento de fé na Índia, que como veremos mais tarde, será a chave para a comunicação com os visitantes das estrelas; e ao final, quando o "E.T. aranha" abre seus finos e compridos braços, sua semelhança com a figura de Cristo na cruz não é uma mera coincidência. Neste aspecto, aliás, me permito reproduzir um trecho do depoimento que dei ao jornal gaúcho Zero Hora na saída do cinema, quando o filme estreou no Brasil em 1978: "O universitário Jorge Saldanha declarou ser o filme um novo marco na história do cinema. Além de ter um alto sentido religioso, pois a chegada dos seres extra-terrestres está se transformando numa nova religião, como se fosse uma nova vinda de Cristo". 30 anos depois a minha opinião mostrou ser um tanto quanto profética, pois milhares de pessoas assistiram ao filme e passaram a olhar para os céus, buscando lá a fé e a esperança que lhes faziam falta aqui embaixo.