O clássico livro de Bram Stoker, Drácula, foi publicado na Inglaterra em 1897, dando origem ao maior personagem da mitologia dos vampiros. Após passar pelo teatro, a obra recebeu inúmeras adaptações para o cinema e a TV, iniciadas pelo clássico do expressionismo alemão NOSFERATU (1922). As mais célebres continuam sendo as produzidas pela Universal nos anos 1930 e 1940, estreladas por Bela Lugosi, e as da produtora Hammer lançadas a partir do final dos anos 1950, com Christopher Lee no papel do sinistro Conde. Em 1979 a Universal lançou uma nova versão com Frank Langella no papel principal, atribuindo ao Conde uma sensualidade praticamente inexistente nas anteriores. Porém foi em 1992 que o livro recebeu sua mais caprichada e fiel adaptação cinematográfica, em um projeto que o afamado Francis Ford Coppola (trilogia O PODEROSO CHEFÃO, APOCALYPSE NOW) dirigiu para a Columbia. Para destacar que o filme se propunha a ser a mais fiel adaptação da clássica obra, ele foi batizado como DRÁCULA DE BRAM STOKER, porém muitos consideram que ele deveria se chamar, na verdade, “DRÁCULA DE FRANCIS FORD COPPOLA”. Mesmo que mantendo a base do livro de Stoker, o roteiro toma liberdades como a de, através de flashbacks, ligar Drácula à figura histórica de Vlad, O Empalador (coisa que Stoker nunca fez diretamente), e criar uma origem para o vampirismo do Conde - após blasfemar pela morte de sua amada, Drácula é castigado por Deus com a maldição do sangue.
Também, aprofundando a abordagem iniciada pelo DRÁCULA de 1979, o Conde de Coppola torna-se um sedutor, e a história de amor entre ele e Mina passa a ser o fio condutor de toda a trama. A característica mais marcante do filme é o seu estilo visual refinado e único: mesmo tendo à sua disposição elevados valores de produção e tecnologia avançada, Coppola optou por utilizar apenas técnicas de efeitos visuais tradicionais (ainda que aprimoradas ao longo de décadas) como efeitos de luz e fumaça, pinturas de fundo e retro-projeção. A maior exceção talvez sejam os excelentes efeitos de maquiagem, bem mais avançados que nas versões anteriores. O aspecto visual também é enriquecido pelos sofisticados desenho de produção e figurinos, e a construção de grandes cenários. A excelente trilha musical ficou a cargo do maestro polonês Wojciech Kilar, que realizou um dos melhores scores da década. Talvez o maior problema de DRÁCULA DE BRAM STOKER seja o de não se assumir como um legítimo filme de horror - o que, aliás, não seria mesmo a intenção de Coppola, que preferiu mostrar o personagem título quase sempre não como um vilão assustador, mas sim como uma criatura sofredora, amaldiçoada pelo vampirismo e pela perda de seu grande amor.
O longa alterna momentos onde o diretor habilmente consegue criar uma atmosfera ameaçadora e ao mesmo tempo sensual (como o primeiro encontro de Harker com as noivas de Drácula - sendo uma delas a deslumbrante Monica Bellucci em início de carreira), com outros onde os personagens, e a trama em si, parecem não saber direito para onde ir. Isto é ainda mais realçado pela dupla de norte-americanos Reeves e Ryder, claramente mal escalados para os seus papéis e incapazes de falarem com um sotaque britânico convincente. Hopkins, por sua vez, dá a seu Van Helsing um ar excêntrico, meio amalucado, inexistente no livro de Stoker. Em compensação Oldman, apesar de não possuir o tipo físico compatível com o de um Conde sedutor, e por vezes exagerar na atuação, revela-se um Drácula adequado à proposta do diretor, mesmo quando sob pesada maquiagem. Para mim Drácula sempre foi e será aquele vampiro impiedoso, calado, com o rosto pálido e os olhos vermelhos de Christopher Lee, mas é inegável que este DRÁCULA DE BRAM STOKER é a mais bem produzida adaptação do conhecido vampiro para as telas, possuindo méritos que a destacam das outras versões.