Crítica sobre o filme "Educação":

Wally Soares
Educação Por Wally Soares
| Data: 08/06/2010

Educação, baseado na história real de uma jovem britânica encurralada entre o desejo por liberdade e a ânsia por um futuro sólido, é provavelmente o filme definitivo sobre rito de passagem da última década. Ainda que retrate eventos que se passam nos anos 60, a obra é magníficamente atual na sua abordagem das catárses familiares e sociais aos quais os jovens estão submetidos a enfrentar em determinado momento de suas vidas. Enxuto, charmoso e fervendo com densidade emocional, é um filme que trata os impasses de sua personagem principal com doloroso realismo. O desfecho do filme é a prova desta honestidade. Ainda que de início implausível e nada condizente, o término da obra pode decepcionar quem – como eu – esperava por algo que fluisse por outro caminho. Mas aí a película não estaria sendo verdadeira. Educação pode então ser sofisticado e elegante, mas por trás dos floreios é crucialmente real.

Roteirizado por Nick Hornby (mais conhecido como o autor dos livros que inspiraram os filmes Um Grande Garoto e Alta Fidelidade), o longa-metragem basea-se em um artigo publicado por Lynn Barber que registrava suas memórias de quando tinha 16 anos. Barber viria a publicar um romance auto-biográfico algum tempo depois, mas vale notar que o roteiro de Hornby – que permaneceu por muito tempo engavetado – inspira-se apenas no artigo em questão. Lynn na história é Jenny (Carey Mulligan), uma jovem culta e cheia de charme que vive pelos estudos, impulsionada pelos seus pais a embarcar em uma vida acadêmica que lhe dê um futuro seguro. O obejtivo é a tão prestigiada faculdade de Oxford. Quando Jenny conhece David (Peter Sarsgaard), porém, tudo muda. David possui o dobro de sua idade, é bem sucedido, bonito e conquista tanto ela quanto seus pais, que decidem apoiar a filha. Aos poucos, a vida nova que abre diante dos olhos de Jenny tanto a deslumbra quando a assusta.

Como retrato de época, Educação é habilidoso e elegante. Ótima direção de arte, figurino excepcional e um clima leve e “britânico”, que nos insere naquele mundo com perfeição. Trata-se daquele tipo de película agradável e adorável, que compoe sua metragem com momentos caprichosos e singelos, ancorados na personagem de Jenny – uma criatura intrigante e completamente apaixonante. Em parte pelas virtudes reservadas para si pelo roteiro esperto, mas verdadeiramente ressoante por causa da performance maravilhosamente encantadora de Carey Mulligan, uma revelação. Se a personagem de Jenny abre a metragem inocente, curiosa e ansiosa por uma vida que parece nunca chegar, as coisas que ela vê e as situações pelas quais ela passa logo a transformam à uma ponto irremediável. E Mulligan retrata as nuances desta transição com particular beleza. Uma sequência em especial, que simboliza por si só o amadurecimento literal da personagem, é elevada ao brilhantismo pelo diálogo que Carey entrega com tamanha sobriedade ao seu fim. “É engraçado não é?” – ela se dirige ao homem com o dobro de sua idade despido na cama – “Toda aquela poesia e todas aquelas canções, sobre algo que não dura nada”.

A partir dessa metamorfose de Jenny, o mundo que nos é revelado pela obra aos poucos começa a mudar. Aquela sofisticação toda começa a ficar quase mundana e aquela antiga ânsia da personagem começa a desaparecer lentamente. E o poder da obra em ecoar na audiência os sentimentos da personagem é uma virtude tanto da direção consistante de Scherfig como também do roteiro incisivo de Hornby, que não hesita na hora de esmiuçar os pais da personagem de forma que seja atribuido a eles a hipocrisia inconfundível de uma educação mais conveniente do que valiosa. O que nos traz de volta ao desfecho controverso já mencionado – e tão necessário. Hornby segue a personagem de Jenny com vigor. No início, idealizando e sonhando. Ao fim, olhando para frente com a amargura consolidada. E é o que mais dói em Educação: a verdade.

Não é só a querida Mulligan que traz graça à película – ainda que surja como um motriz infalível. Alias, as sequências mais intensas nos revelam uma atriz com tamanha segurança que ela chega a se sobrepôr a uma certa Emma Thompson em sequência ótima. Peter Sarsgaard, como o sedutor David, surge tão brilhante como usualmente – e volto a afirmar o quanto trata-se de um ator subestimado. Alfred Molina está muito bem como o pai inconscientemente desequilibrado, Rosamund Pike se diverte na que é a personagem de alívio cômico e Olivia Williams conquista pelos detalhes de uma pequena grande atuação. No todo, um elenco forte que apenas exemplifica o quanto Educação é rico e interessante.

Fotografado de forma belíssima, a obra é de início ao fim prazerosa para com os olhos. É também vibrante para as mentes lúcidas que não aceitam meias verdades. O que a película retrata, antes de qualquer coisa, é a inocência chocando-se com um mundo cínico. Aprender a viver nele pode ser doloroso. E é isso que Jenny aprende, talvez da forma mais cruel que uma moça sonhadora poderia aprender. Ao fim, o que permanece é o sabor amargo da desilusão e do amadurecimento.