Crítica sobre o filme "Terra Bruta":

Eron Duarte Fagundes
Terra Bruta Por Eron Duarte Fagundes
| Data: 22/04/2011
Terra bruta (Two rode together; 1961) é um filme emblemático da carreira do cineasta norte-americano John Ford. Pode ser uma narrativa suntuosa e até voluptuosa na ocupação dos espaços cinematográficos, com seus rigorosos desenhos de produção, mas o espectador não pode passar por alto a visão inevitavelmente racista e colonialista (apesar do paternalismo de algumas sequências) do cinema americano para com o selvagem de seu país. Os caracteres de silvícolas de Ford são ingênuos e em muitos casos se aproximam do ridículo, como se o grande diretor estivesse fazendo um teatrinho de colegiais (fantasioso e amador) de fim de ano; é claro que Ford tem a notável habilidade de filmar para, com o andar da carruagem (ou do filme, pois aqui a carruagem só vai aparecer brevemente no fim), dar inusitada categoria fílmica às pobrezas de roteiro de Terra bruta. A história contada por Ford mostra dois homens da lei, o xerife McCabe e o soldado do exército Gray preocupados com invadir o território dos índios comanches para resgatar homens brancos (crianças e mulheres em especial) sequestrados em outros tempos pelos índios. Já naqueles anos se salientava o intervencionismo americano, comum até hoje. O que falta em Terra bruta é uma visão mais crítica deste intervencionismo; parece que Ford e sua estrela James Stewart têm um olhar reacionário sobre a necessidade civilizatória do homem americano. A aproximação melodramática entre a personagem de Stewart ( o xerife) e a branca que viveu entre os índios vivida por Linda Cristal é uma fuga de roteiro que não resolve os problemas críticos de Terra bruta, só acentua sua ambigüidade e prejudica seu resultado final. Terra bruta tem seus admiradores “grandiosos†e não deixa de conter o fascínio dentro de seu inescrupuloso fascismo. É um belo filme, enérgico a despeito de pueril, embalado apesar de usar tempos fixos de encenação. No ano seguinte, Ford faria aquela que provavelmente é sua obra mais estupenda: O homem que matou o facínora (1962), atingindo o viés crítico de que Terra bruta se ausenta. (Eron Fagundes)