Crítica sobre o filme "The Walking Dead: 1ª Temporada":

Jorge Saldanha
The Walking Dead: 1ª Temporada Por Jorge Saldanha
| Data: 22/12/2011
Em sua longa e conturbada carreira cinematográfica, os zumbis despontaram em filmes clássicos como A NOITE DOS MORTOS VIVOS (1968) e O DESPERTAR DOS MORTOS (1978), ambos do Mestre George A. Romero, ótimas comédias como TODO MUNDO QUASE MORTO (2004) e ZUMBILÂNDIA (2009), e em variações do tema entre as quais EXTERMÍNIO (2002) se destaca. Mas foi apenas em 2010 que os cadáveres ambulantes e antropófagos ganharam uma série para chamar só de sua. E isso graças ao cineasta Frank Darabont (UM GRITO DE LIBERDADE, À ESPERA DE UM MILAGRE), um grande fã do fantástico e do horror – vertentes que finalmente abraçou por completo em seu filme mais recente, O NEVOEIRO (2007).

Quando Darabont descobriu a série de graphic novels OS MORTOS-VIVOS, de Robert Kirkman, logo tratou de adquirir seus direitos. Os quadrinhos de Kirkman (que tomaram emprestados de EXTERMÍNIO o protagonista que acorda do coma em um mundo de infectados), além de trazerem monstros que Frank adora, se diferenciam por conter alta carga de dramaticidade e desenvolvimento de personagens, tornando-os ideais para serem adaptados em forma de uma série de televisão. Como o próprio autor afirma, filmes de zumbis são legais mas eles terminam quando você gostaria de continuar acompanhando os personagens, que além de lutar para sobreviver tem de lidar com uma série de questões éticas e morais em um mundo no qual a civilização deixou de existir.

Darabont vendeu o conceito ao canal pago AMC, que produz as ótimas séries dramáticas MAD MEN e BREAKING BAD, e assim nasceu THE WALKING DEAD, cuja primeira temporada teve apenas seis episódios e fez grande sucesso de público e crítica. Isso não porque ela tenha reinventado o gênero ou os próprios zumbis (que na série nunca são chamados assim, os humanos se referem a eles em inglês apenas como “walkers”). As criaturas obedecem ao padrão estabelecido por Romero em seus filmes: continuam sendo letárgicos, lentos, e só podem ser mortos com tiros ou golpes na cabeça. O que caracteriza a série é que, por mais que os zumbis sejam seu principal chamariz, eles são um elemento secundário. Quem realmente se destaca são os personagens do grupo liderado pelo xerife Rick Grimes (Andrew Lincoln), com seus dramas e conflitos pessoais. Apesar disso, não imagine que THE WALKING DEAD seja uma mera novela com zumbis.

Certamente há alguns elementos dignos de soap operas – por exemplo a esposa de Rick, pensando que ele estava morto, passou a ter um relacionamento com seu melhor amigo, e seu retorno cria situações típicas de triângulos amorosos clichês. Mas no geral a série escapa de ser um “novelão” por ser muito bem escrita e por transmitir ao espectador tensão e perigo quase constantes. Mesmo nos locais onde os sobreviventes acreditam ter encontrado um refúgio seguro existem ameaças ocultas, e elas nem sempre se originam de zumbis. E estes, quando surgem, o fazem de forma impactante. O especialista e co-produtor Greg Nicotero, com sua equipe, criou os que podem ser considerados os melhores zumbis de todos os tempos, e muitos deles são mortos de forma espetacular – aliás, a série é tão violenta quanto um filme de zumbis tradicional, portanto prepare-se para ver decapitações, cabeças explodindo, vísceras em profusão e outras “atrações” do gênero.

Méritos do criador Robert Kirkman (que também é um dos produtores da série) à parte, se THE WALKING DEAD deu certo isso se deve principalmente a Frank Darabont. São poucos os programas que podem se dar ao luxo de poder contar com um ótimo diretor e roteirista como ele. Darabont deu ao programa um visual áspero, realista, e acima de tudo bons argumentos e muito suspense. Assim, foi lamentável sua saída do dia-a-dia da produção após o início da segunda temporada, atualmente em exibição no Brasil pela Fox e que terá 13 episódios produzidos. Consta que Darabont não teria se conformado com cortes no orçamento e se demitiu. Felizmente, avaliando-se pelo que já foi exibido da atual temporada, o programa manteve a qualidade, ainda que seu ritmo tenha ficado perceptivelmente mais lento. Mas o sucesso continua, e THE WALKING DEAD já foi renovada para a terceira temporada. Vida longa aos zumbis...