Crítica sobre o filme "Fomos Herois":

Eron Duarte Fagundes
Fomos Herois Por Eron Duarte Fagundes
| Data: 16/04/2003

No final dos anos 70 o cinema americano ainda cicatrizava as feridas do conflito do Sudeste Asiático; era um grupo de filmes de grande produção em Hollywood que tratava da guerra do Vietnã e apareciam quase que concomitantemente nas telas de todo o mundo. Uma destas realizações, Apocalypse now (1979), de Francis Ford Coppola, foi relançada este ano – 2002 - com uma metragem esticada; talvez seja mesmo este Coppola a mais extraordinária das visões vietnamitas do cinema ianque.
Agora é a vez de Fomos heróis (We were soldiers; 2002), de Randall Wallace, tentar dar seu recado sobre as atrocidades desta longa e frustrada intervenção do imperialismo americano. Certamente o trabalho de Wallace não tem a extensão de demência visual da obra-prima de Coppola; mas não deixa de ser uma das surpresas positivas da atual temporada de cinema.

A imagem trêfega proporcionada pelo estilo de filmar meio fragmentado e irrequieto, em sua montagem e alternância de planos e angulações, do realizador (mesmo concebida dentro das convenções hollywoodianas) e o perverso realismo de algumas cenas transformam Fomos heróis numa narrativa que, se não deixa de conter ainda e sempre alguns laivos de ufanismo imperialista, uma boa dose de tragicidade na relação civilização-à-espera e inferno-de-guerra (as cenas de batalha são cortadas pela vida das famílias dos soldados que guerreiam; o interstício das cartas que comunicam as mortes aos familiares é o mais significativo e angustiante) vai remeter o filme de Wallace àqueles doloridos dramas de guerra do escritor alemão Eric Maria Remarque.

É bem verdade que a herança vietnamita em Fomos heróis não chega a ter toda a lucidez que poderia alcançar (como aqueles filmes bélicos de Stanley Kubrick, verdadeiros teoremas em imagens). Todavia, dentro de seus limites, o trabalho de Wallace é racional e visualmente considerável no seio da precariedade da produção contemporânea.