Crítica sobre o filme "Robocop":

Rubens Ewald Filho
Robocop Por Rubens Ewald Filho
| Data: 20/02/2014

No fundo eu sempre sonhei com o dia em que veria um diretor brasileiro fazer um filme norte-americano onde ele pudesse jogar ironias e verdades na cara do espectador local.  Mesmo pagando um preço por isso. Da mesma forma que em Tropa de Elite 2, o inimigo agora é outro, cujo sucesso o levou a carreira internacional, e onde concluía de forma muita corajosa dando nome aos bois (na corrupção generalizada). Ele repete a dose aqui com um final muito forte, onde parodia os noticiários de “direita” do canal Fox americano com seu desmedido e cego patriotismo (ajudado também pelo subestimado Samuel L. Jackson como apresentador, naturalmente os do canal são loiros ou grisalhos, conservadores e republicanos). Com tal força que o final é bem capaz de ser responsável pela bilheteria fraca que teve na América (rendeu nos primeiros dias não mais que 30 milhões de dólares, longe de um desastre, mas menos que o esperado. Está sendo salvo porque tem sido mais compreendido no exterior, onde já chegou aos 70 milhões!).

De qualquer forma gostei muito desta versão e a única coisa de que senti falta foi o senso de humor que era imperativo na série, em particular no primeiro filme (também não exagera na violência, o que bom). É interessante lembrar que o Robocop original foi uma produção da produtora Orion, com script original e não quadrinhos! E seu problema foi que a Orion abriu falência e na pressa liberaram os direitos para uma série de TV que não funcionou. A massa falida da Orion passou depois para a MGM UA, o que explica sua renascença. RoboCop, o Policial do Futuro (1987) foi dirigido pelo holandês Paul Verhoeven estreando nos EUA (como Padilha) e se passava em Detroit (aqui também, mas de lá para cá, a cidade famosa pela industria de automóveis, hoje é a mais atingida pela recessão e luta com dificuldade por sua sobrevivência). Lá, num futuro próximo passado, para conter a violência nas ruas, será inventado um policial cyborg, a partir de um policial que quase foi assassinado por uma quadrilha de traficantes, criam uma figura poderosa e cibernética. Só que dentro dele há ainda algo de humano que procura vingança. Fez enorme sucesso apesar da visão pessimista do futuro. Tem sempre senso de humor, bons efeitos especiais, ação de primeira. Virou um clássico moderno do gênero. Peter Weller fazia bem o protagonista mesmo com o rosto quase sempre escondido, seguido por Nancy Allen.

Houve duas continuações. RoboCop 2 (1990) de  Irvin Kershner (O Império Contra Ataca), onde Detroit enfrentava o ápice da violência com Departamento de Polícia em greve e em meio a uma nova droga solta pelas ruas. Mas Robocop terá de enfrentar um cyborg maior e mais forte, criado justamente com a função de destruir o “policial do futuro”. Foi o filme estrangeiro de maior sucesso no Brasil em 1990 e que curiosamente não funcionou nos EUA. Desnecessariamente violento (como uma cena de operação no cérebro), tem roteiro de Frank Miller, que se esquece da heroína (mal se vê Nancy) e concentra a ação nos malfeitores. Quem melhora é Weller no papel-título, usando bem a roupa metálica e os gestos. O supervilão é um garoto de 12 anos que age com total frieza e trafica uma nova droga chamada “Nuke”. Também tinha um profeta louco que é transformado no segundo Robocop. O clímax é o confronto dos dois. Pena que o filme termine meia hora antes do final, com o fim de Cain. Dali em diante é apenas uma sucessão de lutas exageradas. Só que tem tanta ação, tanta tecnologia, que o espectador não vai se sentir logrado.

O Robocop 3 de 93, foi feito por um desconhecido Fred Dekker  e novo ator, Robert John Burke (mas sempre com Nancy). Ele continua fiel aos seus princípios, protegendo a população de Detroit contra a corporação OCP, que está expulsando as famílias de suas casas para construir um ambicioso projeto imobiliário. Robocop enfrentará ainda um androide Ninja e a gang dos Splatterpunks numa batalha de rua. Por falta de grana da Orion, este mal passou nos EUA (a série sempre foi  mais popular no exterior que lá dentro). Mesmo com esses problemas, o filme é profissional. A heroína leva vinte minutos para aparecer e o Robocop ainda mais um tempo porque a história se fixa na resistência de alguns moradores que viram guerrilheiros para enfrentar os policiais, a mando da grande corporação que precisa expulsá-los de um bairro de Detroit, para construir uma obra grande no lugar e assim agradar os japoneses. Sempre violento, com uma leitura política, menos bem humorado que os anteriores.

E chegamos a este novo Robocop que vem com um elenco Classe A muito superior aos anteriores. O papel título é de Joel Kinnaman, que é dinamarquês e lembrado pela série de TV The Killing (esteve também em Millenium, versão com Daniel Craig, Protegendo o Inimigo com Denzel Washington e no B A Hora da Escuridão). O ótimo Gary Oldman faz o inventor do novo Robocop , a australiana Abbie Cornish é a esposa (ela é encantadora, mas resultou menos convincente). Acho uma sacada divertida colocar logo como vilão supremo aquele Michael Keaton, que já foi o criador de Batman!

Todo o filme é portanto narrado em dois tempos: o programa de TV com Samuel Jackson que diz o que o público deve pensar e os fatos que vão sucedendo que não fogem muito do original; E depois de ser atingido forma quase mortal, o oficial Alex Murphy tem a chance de virar um cyborg (acho que não usam essa palavra) usando um corpo que é um verdadeiro arsenal. Mas não lhe custa muito para perceber que ele foi vitima de um atentado (em sua própria casa) e um chefe de quadrilha que o tentou eliminar, provavelmente com a ajuda de uns colegas. Desobedecendo a ordens, vai atrás dos culpados, ate o momento onde se torna evidente que sabe demais e pode ser perigoso. Deve ser, portanto eliminado.

Como já disse, o filme não abusa da violência, mas é sempre convincente nas cenas de ação, muitas vezes correndo com os personagens ou procurando segui-los ou sinalizá-los. Claro que não tem a novidade do primeiro Robocop, e nem teria como. Mas não desaponta, é um competente trabalho de um cineasta não acostumado a lidar com tanta tecnologia. Vibrei por ele.

(LEIA TAMBÉM A HISTÓRIA DA ORIGEM DO FILME)