Crítica sobre o filme "Noé":

Rubens Ewald Filho
Noé Por Rubens Ewald Filho
| Data: 02/04/2014

Este é um filme bíblico diferente dos que estamos acostumados a assistir, quase de autor. Nada a ver com a tradição do gênero praticamente inventado por Cecil B.De Mille (Sansão e Dalila) que misturava sexo e religião. Também é completamente oposto ao filme Bíblia (1966) de John Huston, que também utilizava o Genesis, deixando a parte final para o próprio diretor Huston fazer o Noé, ouvindo a voz de Deus (aqui chamado de Criador!) e de forma relativamente tranquila chamar os bichos (a novidade: para não ter problemas com eles, todos eles entram na arca aos pares, meio rapidamente, de tal forma que mal da para identificá-los. E caem dormindo! Talvez tenham feito isso para evitar comparações com outro filme de Arca de Noé, aquela comédia de Steve Carell, A Volta do Todo Poderoso (07), de Tom Shadyac que era caótico mas tinha momentos divertidos).

Este é o primeiro filme do diretor Aronofsky desde Cisne Negro (sempre trabalhando com o mesmo roteirista de todos seus trabalhos) que tem um orçamento generoso (ao que parece 125 milhões tendo rendido 43 milhões de dólares no primeiro fim de semana  e foi rodado  na Islândia, no México (Durango). Houve uma controvérsia muito grande antes do lançamento porque o estúdio sofreu criticas de lideres religiosos cristãos que o criticavam porque  o filme estaria fugindo da História. A desculpa oficial era que o trecho que aborda Noé e o dilúvio na Bíblia era muito pequeno e sucinto, não entrando em detalhes. Portanto tomaram liberdades. Darren ficou muito aborrecido porque começaram a fazer diferentes versões do filme e exibi-las , sem consultar  o diretor. O mais curioso é que não perceberam que o trabalho de Darren é muito religioso,ainda que influenciado pelo visão judáica do Velho Testamento. Mas o final foi feliz porque isso serviu de publicidade para o filme que acabou tendo boas criticas e boa bilheteria (ate na Rússia estreou bem!).

Mas fique preparado porque é um filme sombrio, nada “technicolorido”, mas não muito violento. Ao contrário é bastante místico, dando uma visão literal do dilema de Noé que acaba sendo um servo de Deus que tem que entender o que ele deseja, embora este nunca se manifeste tão abertamente quanto em filmes anteriores. Ele tem sonhos e precisa decifrá-los e às vezes o faz de maneira errônea. O titulo é correto porque o filme é todo em cima da figura de Noé, desde jovem  quando relembra a expulsão do paraíso (Adão e Eva são vistos como figuras distantes e estilizadas, não dá para ter nudez ) e logo depois Caim matando Abel e dando origem a uma linhagem de homens maus e sem lei, que serão os vilões da história. O fato é que o roteiro fez tudo para tornar a historia mais intensa e conflitada. Assim temos o avô da família, o Matusalém (feito por Anthony Hopkins), que chega a ter poderes mágicos e o chefão vilão da  tribo que descende de Caim, Tubal Cain (o bom ator Ray Winstone) que até mesmo se infiltrar na arca esperando o melhor momento para  atacar Noé. Além disso, Noé tem três filhos, o mais velho Shem (Douglas Booth, inglês bonitinho e dentuço que antes fez a mais recente versão de Romeu e Julieta, ainda inédita no Brasil) – será este Shem que pela Bíblia dará origem aos semitas, ou seja, aos que chamamos de judeus. É o bom rapaz que namora uma jovem que convenientemente foi adotada pela família (o problema dela ser estéril será miraculosamente resolvido, aliás o único milagre do filme! Por isso parece meio fora de lugar...).  Tem ainda o jovem Jafeth (Leo Hugh Carroll, que parece feminino demais) e o rebelde Ham (interpretado pelo já famoso Logan Lerman, o Percy Jackson) que  faz a linha adolescente rebelde, pensando com os órgãos sexuais e não a razão. Também quer uma mulher para si e entra em conflito com o pai quando não consegue, pensando então em traição.

Talvez a melhor surpresa do filme seja ver que Russell Crowe tem seu melhor momento nos últimos anos (na verdade, já o tinha dado como perdido e canastrão) mas olha outro milagre, sai-se muito bem num papel muito difícil, que por vezes se torna antipático e tem que tomar decisões muito difíceis, fazendo o filme pesar demasiado. Não é surpresa nenhuma, porém ter o prazer de ver Jennifer Connelly (novamente com em Russell de Mente Brilhante) fazendo a mulher de Noé, Naameh, com toda discrição e delicadeza ate o momento em que tem seu grande desabafo. Outra boa figura é a de Emma Watson, que quem diria, amplia sua carreira como Ila, a filha adotada em cima da qual acontece o maior conflito do filme.

Outra coisa: não espere muitos efeitos de ação ou de 3D com a Arca ou a água da chuva ou da enchente sendo jogada no espectador.  Esta tudo ali a serviço de um drama inusitado, levado e discutido a sério.