Crítica sobre o filme "Godzilla":

Jorge Saldanha
Godzilla Por Jorge Saldanha
| Data: 07/10/2014

O mais antigo e famoso dos kaijus (monstros gigantes) japoneses, Godzilla, surgiu no clássico homônimo de 1954 e por décadas protagonizou uma série de filmes produzidos em seu país de origem. Extremamente populares no Japão mas com efeitos especiais abaixo dos padrões de Hollywood, eles possuíam aceitação restrita no Ocidente, o que cedo ou tarde levaria a uma “americanização” do monstro. Isso finalmente aconteceu com o lançamento pela Columbia, em 1998, do GODZILLA dirigido por Roland Emmerich. Tecnicamente esmerado, o filme rendeu bem nas bilheterias mas foi muito criticado por seus personagens mal escritos, por ser demasiadamente inspirado no JURASSIC PARK de Steven Spielberg e, acima de tudo, por descaracterizar Godzilla.

Assim, os planos de uma continuação foram arquivados por mais de uma década, até que a Legendary Pictures e a Warner Bros., após negociar os direitos de adaptação com a produtora Toho, decidiram trazer o monstro de volta, tomando todo o cuidado para evitar os equívocos do longa anterior. Para a direção foi escolhido um diretor pouco conhecido, o britânico Gareth Edwards, mas que em seu longa de estreia, o independente MONSTROS (2010), demonstrou perícia com efeitos visuais e soube valorizar a aparição de criaturas gigantescas. Edwards, que como Emmerich é fã assumido dos filmes dos anos 1970 e 1980 de George Lucas e Spielberg, soube dosar melhor suas inspirações que o alemão.

Assim, podemos ver ecos em seu GODZILLA (2014) de CONTATOS IMEDIATOS DO TERCEIRO GRAU e, principalmente, TUBARÃO (1975). Como nesses filmes, a trama humana baseia-se em um núcleo familiar, e Edwards acentua o suspense evitando mostrar totalmente, na maior parte do tempo, os monstros - especialmente Godzilla. Isso funcionou perfeitamente em TUBARÃO, e aqui mostra ser eficaz para valorizar os embates entre os kaijus que acontecem no terço final do filme. Além disso, quando totalmente revelado, Godzilla, feito com GCI de ponta e com um design clássico, é mostrado com um senso de peso e escala simplesmente épico. Isso, contudo, não evitou que o filme recebesse várias críticas. Afinal, ao contrário do tubarão de Spielberg, Godzilla não é um vilão: é o herói do filme de Edwards, e seria legítimo esperar que ele não fosse relegado na maior parte do tempo a uma função tão secundária.

Além disso, apesar de os personagens humanos sem dúvida terem sido melhor desenvolvidos que os do longa de Emmerich, eles falham em cativar o espectador. Caso fosse dado mais espaço aos papéis dos ótimos Bryan Cranston, Juliette Binoche e Ken Watanabe, a trama certamente ficaria mais enriquecida. De qualquer sorte, GODZILLA é um filme que respeita o original (com a alegoria aos ataques nucleares ao Japão na Segunda Guerra Mundial tornada mais explícita), dá um tom mais épico e evolucionário à origem do Rei dos Monstros e seus antagonistas, e abre caminho para a continuação (já confirmada e que novamente terá Edwards na direção), que certamente terá condições de satisfazer mais plenamente os fãs.