Logo após Tommy (idem, 1975), um outro disco conceitual (ou seja, que conta uma história em torno de um tema) do cultuado grupo britânico The Who: Quadrophenia, foi também transformado em filme produzido pelo próprio grupo, ainda que com baixo orçamento. Só que mais convencional e despretensioso, usando a música apenas como fundo musical.
Mostra um ambiente bem conhecido pelos membros da banda, a efervescente Londres do começo dos anos 60, em que os Mods (dândis sempre bem vestidos e que andam em lambretas cheias de enfeites e espelhos) vivem brigando nas ruas e bares com os Rockers (vestidos de couro e mais brutos em suas motocicletas). Ao mesmo tempo, eles têm conflitos com as famílias, os empregos e o desajuste em relação à sociedade. Tudo é representado por um jovem mod, o bom Phil Daniels (apesar de pouco conhecido aqui, muito parecido com o líder e mentor do The Who, Pete Townshend, continuou a trabalhar constantemente no cinema e na tevê) que busca sua identidade e é meio inconformista dentro do grupo, sofrendo ainda com a paixão por uma moça leviana e insensível Leslie Ash (outra que continua na tevê).
Interessante por mostrar a juventude inglesa dos anos 60, bem menos presente nas telas que a americana, o filme é prejudicado por uma certa falta de calor e emoção, uma história linear e sem grandes lances, dirigida apenas corretamente pelo inglês Roddam. The Who aparece na TV, tocando no programa Ready Steady Go.
O cantor Sting, que faz o ídolo dos Mods, Ace Face, tinha papel bem maior e com mais falas (ele só entra no filme depois de uma hora de projeção). Mas decidiram, com a aprovação dele, cortar a maior parte, tornando o personagem mais misterioso e mítico.
O diretor Roddam depois deste sucesso da contracultura, dirigiu em Hollywood Guardiões da Honra, que promovia a vida militar (quem disse que diretor tem que ter opiniões consistentes?). Também não acertou na original ideia de A Prometida, sobre Frankenstein, criando uma noiva para seu monstro. Mas logo foi acabar em superproduções para a tevê. Fez ainda 1986 – Ária (Aria. Episódio 7 – Liebestod). 1987 – A Festa da Guerra (War Party) 1991 – K2 – A Montanha da Morte (K2. Michael Biehn). 1998 – Moby Dick (Idem. Gregory Peck, Patrick Stewart.TV). 1999 – Cleópatra (Cleopatra. Leonor Varela, Billy Zane. TV). Ultimamente tem dirigido e escrito e produzido a série de tevê Masterchef.
Explicação do título
Definição de Quadrophenia, conforme aparece no filme: uma personalidade dividida em quatro facetas separadas, um estado avançado de esquizofrenia, o dobro da aceitável condição médica, inabilidade de controlar qual faceta está dominante. Ou ainda, um estado extremamente volátil da mente, condição atual.
Baseado em opera rock do The Who, foi rodado em cinco semanas em 1978, dirigido pelo estreante Roddam que insistiu em usar um elenco de desconhecidos (quase todos depois fizeram sucesso na tevê). O elenco aprendeu a trabalhar sempre junto e treinar as cenas e por isso que o filme hoje é considerado o maior dos filmes sobre jovens (britânicos).
O Who era o único grupo que se endereçava direta entre os jovens e sua busca de identidade. E o filme reflete isso, no que era no fundo uma revolta da classe trabalhadora, os jovens se revoltando contra seus pais, uma revolução social. Liderada pelos chamados Mods. Que eram isso, pobres e queriam ser notados, ter seu espaço. Vestiam-se bem e foram reis por um fim de semana (em Brighton, litoral britânico). Era também o surgimento da pílula de controle de natalidade, ou seja, o começo da revolução sexual, enfim era possível fazer sexo seguro.
Inédito
Curiosamente este filme não passou no Brasil nos cinemas, só saiu quando veio a moda do VHS e mesmo assim teve relativa repercussão. Só atualmente é que se tornou uma espécie de clássico, assim mesmo na Inglaterra. A primeira cena do filme merece um comentário, já que o herói vendo o pôr do sol iria se jogar e se matar. Mas vendo o sol e como a cena era bonita acharam melhor mudar tudo e deixá-lo sobreviver.
Logo depois veio um atrevimento, a impressão de que este foi um dos primeiros filmes (depois de If/Se, 68) a mostrar nudez frontal masculina, no caso, num banheiro público (que hoje não existem mais na Inglaterra) dos jovens protagonistas Phil e de Ray (Raymond) Winstone, que hoje é um dos melhores vilões do cinema em filmes como Hugo Cabret, Os Infiltrados, Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, Sexy Beast. Só vestidos é que veremos que eles são de grupos rivais e inimigos, os Mods e os Rockers.