Como vocês sabem existem dois documentários sobre o movimento da Tropicália, atualmente em circulação. Este é o primeiro a estrear, valorizado pelo prestígio de um homem de tevê, Marcelo Machado, que é companheiro de carreira de Fernando Meirelles e fez antes outro musical bem-sucedido sobre o Festival da Record, se baseando nos antigos - usando os impressionantes arquivos da emissora. Inclusive com material inédito desde a estreia.
Tropicália também bebe da mesma fonte, mas que infelizmente é menor e menos variada (infelizmente muita coisa foi destruída em incêndios e hoje grande parte da memória da nossa televisão não existe mais). Além disso, e apesar de tudo, o filme já ficou conhecido como aquele que não tem o depoimento atual de Caetano. Embora traga muitas cenas de arquivo (algumas as mesmas do outro filme, que são as do Demiurgo, aquele lendário filme underground que Caetano fez com Jorge Mautner em Londres e com o resultado altamente bizarro!).Eu fui daqueles que vivi a Tropicália pouco mais que adolescente, comprando o disco, adorando as músicas (certas se tornaram hinos, como Alegria, Alegria) e principalmente toda a gestação do movimento, porque ele se inspirava em dois espetáculos que tiveram importância notável em minha vida, a montagem teatral de O Rei da Vela, de José Celso Martinez Correa, que teria por sua vez se inspirada em Terra em Transe, de Glauber Rocha.
É muito longo explicar tudo aqui, o filme muito bem documentado se encarregando disso de maneira muito competente, inclusive de já falecidos, como Nara Leão e finalmente fazendo justiça, ainda que parcial, aos queridos Os Mutantes, que aparecem até em ceninha do filme de Khouri, As Amorosas. Também na época não chegamos a saber da prisão de Caetano e Gil pelo governo e seu exílio forçado (porque já estava na imprensa fui exceção, mas eram outros tempos). Ou seja, para mim foi uma viagem nostálgica, muito bem realizada e documentada (entre outras músicas tem o lendário Carcará com Bethania e tambem Nara, Divino Maravilhoso, Proibido Proibir).
O outro Tropicália de outro amigo, Toninho Moraes, ex-colega de jornalismo na Globo, produtor de Babi por muitos anos, pai de Braga, tem outra proposta, outro visual, com sets mais exóticos, ganhou prêmio em Gramado (trilha musical arranjos) e também funciona bem. Gosto dos dois, acho que se complentam.