Crítica sobre o filme "Com 007 Só se Vive Duas Vezes":

Rubens Ewald Filho
Com 007 Só se Vive Duas Vezes Por Rubens Ewald Filho
| Data: 20/08/2012

Este foi o quinto filme de Sean Connery como James Bond, e talvez o menos ilustre e relembrado filme de toda a série, e com certeza dentre os de Connery, que já estava cansado de fazer o personagem e ser confundido com ele. Durante as filmagens no Japão, teve problemas com a imprensa. Ele viajou com sua mulher (a já falecida atriz) Diane Cilento (ela, aliás, dublou Mie Hama, que faz Kissy Suzuki, que estava doente numa cena de mergulho submarino!). Foram muito perseguidos pelos jornalistas, que chegaram a fotografá-lo até no banheiro. Chamavam Connery de Bond (o que o irritava muito). E foi por lá que anunciou que não retornaria ao papel. Os produtores rasgaram o contrato (ele teria que fazer ao menos mais um filme e lhe ofereceram um milhão de dólares. Mesmo assim, ele só retornaria depois do fracasso de seu sucessor, George Lazenby, no filme seguinte, e assim salvar a série. Connery também se meteu em confusão quando perguntaram se ele achava as mulheres japonesas bonitas e respondeu que “ não” (ele entendeu oposto). Noutra ocasião, deu entrevista em roupas casuais e sem peruca e o jornalista se ofendeu: “É assim que James Bond se veste?” perguntou. E Connery respondeu bravo: “Não sou James Bond, sou Sean Connery, um homem que gosta de se vestir confortavelmente."

O título de Você Só Vive Duas Vezes vem de um poema (haiku) que está escrito no livro original de Ian Fleming. Diz em inglês: "You only live twice. Once when you are born. And once when you look death in the face." (Você vive apenas duas vezes. Uma quando nasce, outra quando encara a morte”. No livro, o poema é escrito por Bond para seu amigo Tiger Tanaka. Não foi escrito por um famoso poeta japonês Matsuo Basho, mas sim ao estilo dele. A música-tema homônima de John Barry, com letra de Leslie Bricusse, diz outra coisa: “seria viver uma vez por você, outra por seu sonho” (once for yourself, once for your dream). Não ajuda muito o fato de que a canção é interpretada pela filha de Frank Sinatra, Nancy, que tinha voz e talentos pequenos e logo saiu de moda. Embora tenha sido sucesso o de sempre (orçamento nove milhões e meio de dólares, renda 43 milhões), o filme não resiste muito bem ao tempo, apesar de ter sido quase todo rodado no Japão e nos estúdios Pinewood (insistem pouco no uso da back-projection, a projeção de fundo que hoje fica visível demais). Mas houve cenas feitas na Espanha (o helicóptero Little Nelie, em Andaluzia), Bahamas (cenas submarinas), Bermuda (submarino), Inglaterra (queda do avião), Cabo Canaveral (arquivo), Gibraltar (Destroier que faz enterro no mar), Hong Kong, Noruega (cena de abertura). É curioso porque o roteiro foi do escritor infantil Roald Dahl (Convenção das Bruxas, A Fantástica Fábrica de Chocolate, Matilda), que afirmou que não levou nada muito a sério, até porque a produção lhe impôs determinadas regras e esquemas que tinha que seguir (por isso que a estrutura básica do roteiro é muito parecida com outros da série, por exemplo em O Espião que me Amava, Moonraker e ainda de novo em O Amanhã Nunca Morre). Mas as piadinhas desta vez são das mais fracas e nenhum dos personagens secundários é memorável.

A novela homônima foi a última publicada, enquanto Ian Fleming ainda estava vivo. Foi lançada em 16 de março de 1964, e foi a décima segunda da série. E pela primeira vez, uma história do filme pouco tinha a ver com o original. Há um ou outro personagem ou detalhe, mas o argumento em si é radicalmente diverso. Não tem um prólogo longo como os posteriores, já começa com a música-tema e o tiro no espectador. Segue-se uma sequência rápida, quando Bond está na China com uma mulher que abre a porta para pistoleiros que fuzilam o Comandante Bond. Aí vem os letreiros e logo tudo se revela como parte de um plano para ele passar como morto, e assim ficar livre e trabalhar melhor. Mas não se dão ao trabalho de explicar como escapou do atentado (foi tudo encenado e falso? Até as balas?). E o enterro no oceano parece elaborado demais e sem lógica! Enfim, o forte de Bond nunca foi a lógica ou o apego a verdade. De qualquer forma, uma nave misteriosa ataca primeiro astronautas americanos e depois soviéticos, parece que alguém está querendo provocar uma guerra. Só no cinema mesmo o representante inglês discorda do americano, que deseja o confronto armado e manda 007 (desta vez me marcou muito a maneira deles falarem o número, ou seja, "Double Ôu Seven") ao Japão para investigar quem pode ser o autor da façanha.

Não usam o nome Spectre, mas eventualmente descobriram que tudo é comandado pelo chefão da organização criminosa que se instalou dentro de um vulcão que foi construído em estúdio (no livro era castelo, mas não se pode ter essas construções a beira mar no Jápão por causa dos furacões e terremotos). E pela primeira vez na série veremos de corpo inteiro o Blofeld, que agora é interpretado pelo conhecido ator inglês Donald Pleasence (1919-95, da série Halloween), que aparece com enorme cicatriz inexplicada no lado direito do rosto. Assim serviu de inspiração para em Austin Powers, o super vilão Dr. Evil. Antes de Pleasence, houve outro ator fazendo o papel, mas foi despedido porque não convenceu: o tcheco Jan Werich que era famoso palhaço, mas ficou parecido demais com Papai Noel! Em filmes seguintes, Blofeld será feito por outros atores e até mesmo Charles Gray, que tem uma ponta aqui como agente britânico que tenta ajudar Bond, mas é logo assassinado com facada nas costas. Q aparece apenas com 50 minutos de ação e ajuda muito pouco, apresenta o mini-helicóptero Little Nelie, que ao menos servem para algumas algumas perseguições engenhosas (além do mini-helicóptero, com carro inimigo sendo guinchado por outro helicóptero e jogado no mar) e até a utilização de guerreiros ninjas para atacar uma base que fica escondida num vulcão (o que certamente inspirou a sátira de Austin Powers).

A alemã (aqui ruiva) Karin Dor (que fez também Topázio de Hitchcock) larga Bond preso num avião que está caindo e morre comida por piranhas. É bom saber que Karin está viva e depois da carreira no cinema continuou fazendo teatro onde hoje ainda faz sucesso. O filme chamou alguns atores japoneses, como o famoso e importante Tetsuro Tamba (1922-2006), que faz Tiger e interpretou 247 créditos em sua carreira, entre eles o famoso Hara-kiri, O Samurai do Amanhecer e A Sétima Aurora, com William Holden). Além disso, era ainda líder religioso local. Teru Shimata (1905-88), estava trabalhando como enfermeiro e era radicado nos EUA. As duas mocinhas que fazem o interesse romântico eram muito populares na época e ambas estão vivas, mas aposentadas. Mie Hama e Akiko Wakabayashi apareceram juntas antes em King Kong vs. Godzilla e no What´s Up, Tiger Lily?, depois parodiado por Woody Allen. O problema é que nenhuma delas sabia falar inglês e ambas foram dubladas. Chegaram a trocar de papel, porque Hama teve enorme dificuldade em aprender e até ameçou se matar. Mais um nome conhecido, Burt Kwouk, mais lembrado como Cato da Pantera Cor de Rosa (ainda está vivo), faz o agente número 3 da Spectre (esteve também antes em Goldfinger). Quem também aparece em ponta é Alexander Knox, que interpreta o americano Secretário de Defesa (mas foi dublado por outro para não demonstrar seu sotaque britânico). Tsai Chin, que faz a cena antes dos créditos, voltou a série Bond quase 40 anos depois numa pontinha na cena do jogo de poquer em Le Chiffre no filme Cassino Royale. Já aparecem aqui carros japoneses como o Toyota 2000GT, que teve que virar conversível por causa da altura de Sean Connery, que com quase um metro e noventa, era alto demais para entrar no cupê normal.

O helicóptero Little Nellie é baseado no verdadeiro Wallis Autogyro e seu inventor K.H. Wallis, foi quem o dirigiu no filme. James Bond participa de um casamento japonês no filme, mas usa um nome falso, o que justifica o casamento futuro do personagem no filme seguinte. Quando estavam preparando o filme no Japão, o diretor e produtores, fotógrafo e diretor de arte quase morreram. Em 5 de março de 1966, eles tinham viagem marcada num avião da BOAC voo 911, que perderam o horário para ver uma exibição de ninjas. Duas horas depois de partir, o Boeing 707 explodiu e se desintegrou. Bem de acordo com o título do filme! Pela primeira vez, M e Miss Moneypenny (aqui ouve-se seu apelido, Penny) são mostradas fora dos escritórios (isso iria acontecer de novo em outros filmes como O Homem da Pistola de Ouro, O Espião que me Amava e Moonraker).

Foi o último filme onde se recorreu à dublagem. Tamba ganhou a voz do habitual Robert Rietty. Mie Hama a de outra habitual Nikki Van der Zyl. Peter R. Hunt que havia sido o montador da série foi chamado para assumir a edição, mas ele impôs uma condição: que pudesse dirigir o filme seguinte. Concordaram e assim fez A Serviço Secreto de Sua Majestade. Este é o único filme em que Bond aceita um Martin não da maneira que ele gosta (isso não foi erro, mas uma piada intencional dos produtores). Ernst Stavro Blofeld tem esse nome em homenagem a Tom Blofeld, que foi colega de escola de Fleming em Eton. A data de nascimento de Blofeld é a mesma que de Ian Fleming: 28 May 1908. A pistola foguete e o cigarro foguetes eram armas verdadeiras e estão no filme como merchandising! Os fabricantes queriam que fossem adotados pelos exércitos, mas eram caros demais e inconfiáveis (explodiam e nunca acertavam o alvo). Deixaram de ser produzidos em 1969. Como já se sabia que seria o último filme de Sean Connery como Bond, a publicidade dizia que nele Bond seria morto, se casaria e se tornaria japonês (e realmente tudo isso acontece na história).

Talvez pudesse estar de mau humor quando revi para ficar cobrando detalhes (por exemplo, a piscina de piranhas onde não vemos os bichos e elas atacam e matam qualquer um, quando os peixes brasileiros só atacam com a presença de sangue!). Não aconselho, porém, a ninguém a ver o filme dessa forma, Bond é para ser curtido como fantasia!