Crítica sobre o filme "Reis e Ratos":

Rubens Ewald Filho
Reis e Ratos Por Rubens Ewald Filho
| Data: 20/02/2012

Na saída da sessão encontrei um amigo cineasta brasileiro que foi dizendo que achou o filme bem feito, mas que não entendeu direito a proposta. Respondi que achava a mesma coisa. Por que a gente sai meio perplexo do que parece ser uma sátira à moda inglesa, mas nesse caso faltam os atores adequados, fiquei pensando no que um Peter Sellers poderia ter feito no papel do locutor de rádio mediúnico! Seria impagável.

Mas ao escalar o esforçado Cauã, em vez de um humorista, perde-se o efeito ou possibilidades. Acho que a melhor descrição do filme é dada pelos próprios atores em entrevistas que afirmam que este é “um filme de amigos”, uma brincadeira da turma que fez antes Meu Nome é Johnny e que resolveu partir para uma produção modesta. Parece que usaram o que sobrou dos sets de O Bem Amado, sendo que o salão da Embaixada Americana não deixa dúvidas.

Onde todo mundo trabalhou por pouco dinheiro (o que, aliás, é a norma no cinema nacional) tentando entrar no espírito da brincadeira que tem bem a cara de Selton Mello (que ajudou Lima no projeto). O filme que me pareceu mais perto como referência é a melhor das chanchadas (aliás, é curioso como o diretor evitou cair na chanchada à moda da atual TV brasileira Zorra Total) que foi O Homem do Sputnik de Carlos Manga.

Também era uma farsa envolvendo espiões estrangeiros se envolvendo em negócios nacionais e trazia também uma cantora, no caso, era uma vedete com a estreia de Norma Bengell imitando brilhantemente Brigitte Bardot. Aqui colocaram uma moça bonita, mas neutra, que usa um sotaque gaúcho, mas vem sem o glamour da época.

Aliás, o uso de sotaques é um problema porque todo mundo fica engessado por ele e as piadas se perdem, em diálogos que parecem ter sido feitos para serem lidos e não ditos. Ainda assim tenho que admitir que haviam senhoras de boa vontade que riram bastante na sessão da tarde de carnaval que assisti. Mesmo Selton vira samba de uma nota só, em vez de saborear o texto, fica no mesmo tom.

Não me parece uma boa ideia envolver o Golpe de 1964, até por que, essa revolução entre aspas sem tiros já poderia por si só se contada ao pé da letra ser muito engraçada, com pseudo-heróis e todo mundo dando um jeitinho.

Uma farsa bem brasileira que não precisava de piadas bobas com sapatarias, esposas infiéis e alguns fatos reais (um presidente como Goulart que gostava de transar com vedetinhas, um agente do exército que se fazia passar por marinheiro para provocar a greve na certeza que haveria uma reação a isso - uma situação que começa a ser desenvolvida, mas acaba esquecida, a interferência americana).

Mas as referências só são entendidas pelos poucos que se lembram de fatos. O forte do brasileiro atual não é a História!). Até o fato de misturar o preto e branco (no que seria um flash back) e colorido não acrescenta nada.
Certamente a aparição mais esdrúxula é a de Rodrigo Santoro, que faz um personagem desprezível que é um vendedor de livros e que vem naquela linha tradicional de Brad Pitt: homem bonito faz tudo para parecer feio na tela!

Só que Santoro já não tem que provar que é bom ator e se queriam alguém feio porque não chamaram logo um! Em vez de carregar o coitado de tanta maquiagem, que resultou exagerado e mesmo repulsivo. Será que não sabem que no cinema feio é convenção, não precisa ser literal? Tipo O Fantasma da Ópera, que usa máscara e quando tira é o Gerard Butler?

O resultado é bizarro e equivocado (há outro filme que me fez lembrar, e que era o mesmo tom de farsa alegórica, esse totalmente esquecido O Homem que Não Comprou O Mundo (68), o único de ficção de Eduardo Coutinho com Marília Pera (estreia) e Flávio Migliaccio). Espero que os atores ao menos tenham se divertido e que Selton não tenha repetido a dose com seu próximo Billi Pig, que aparenta ser igualmente errado.