A Quarta Aliana da Sra. Margarida
O jovem Sofren escolhido para ser pastor em um vilarejo noruegus. Ao chegar misteriosa congregao rural, fica receoso com os velhos hbitos que ditam as regras ali. Uma delas de que ter de se casar com a viva do pastor recm-falecido. Trata-se de Margarida, uma estranha senhora de 75 anos, que j enterrou trs maridos e dizem ser bruxa. Mas Sofren tem uma noiva, Mari, e ao lev-la junto, apresenta a jovem comunidade como sua irm. Os dois ento planejaro a morte de Margarida.
A Quarta Aliança da Sra. Margarida (Prästänkan/ The Parson's widow). Suécia, 1920, 71 min. Comédia/Drama/Horror. Preto-e-branco. Dirigido por Carl T. Dreyer. Distribuição: Obras-Primas do Cinema
Raríssima fita de Carl Theodor Dreyer (1889–1968), um dos mais respeitados cineastas da Dinamarca, que realizou uma grandiosa fita sombria que joga com gêneros diferentes, a comédia, o drama e o horror inspirado no movimento expressionista, que começava a percorrer a Alemanha. Mudo e preto-e-branco, lançado em 1920, este filme, o segundo da carreira do diretor, abre em um tom reflexivo sobre a natureza, pontua momentos de afeto e comicidade em torno do casal Sofren e Mari e, com a aprição da senhora Margarida, cresce do suspense ao terror, num desfecho com ar existencialista embasada nas ideias do filósofo Kierkegaard. Tanto Dreyer quanto Kierkegaard estudaram e produziram materiais sobre a cristandade, a moralidade e a ética, com metáforas e ironias, cada qual à sua linguagem. Neste filme percebemos tais tratamentos e temas, sob influência da infância maltratada de Dreyer, que foi abandonado pela mãe ainda pequeno e logo adotado por uma família severa, com valores cristãos intrínsecos (por isto seus filmes tratam de fé, moral, opressão, dúvidas e excessos); por ter sido jornalista, Dreyer escrevia os roteiros com minúcias, como aqui, e por ter trabalhado em empresas de montagem de cinema, sabia das técnicas como ninguém e detinha um olhar atencioso. Buscou a naturalidade no trabalho dos atores e no uso dos cenários, métodos de um cinema artesanal que pregou até o final da vida – ele realizou 14 longas num espaço de 45 anos (entre 1919 e 1964).
No final das gravações a atriz sueca Hildur Carlberg, que interpreta a enigmática senhora Margarida, morreu aos 76 anos.
Uma curiosidade: o filme foi rodado na bucólica Lillehammer, comuna norueguesa próxima da capital, Oslo, bastante visitada hoje. Além da Noruega, Dreyer rodou seus filmes na Dinamarca, país natal, na Alemanha e na Suécia.
O filme havia saído no mercado brasileiro pela Magnus Opus e agora pode ser assistido em novo máster pela Obras-Primas do Cinema, que resgatou o diretor num box em disco duplo contendo “Michael” (1924), “A queda do tirano” (1925) e sete curtas-metragens, com extras (entrevistas e vídeos especiais sobre o cineasta). Vem quatro cards colecionáveis, com as capas dos filmes.
Quem curtir pode procurar também as três obras-primas de Dreyer, “A paixão de Joana D’Arc” (1928), “O vampiro” (1932) e “A palavra” (1955), disponíveis em excelentes edições pela Versatil.
Sobre o Colunista:
Felipe Brida
Jornalista, cr?tico de cinema e professor de cinema, ? mestre em Linguagens, M?dia e Arte pela PUC-Campinas. Especialista em Artes Visuais e Intermeios pela Unicamp e em Gest?o Cultural pelo Centro Universit?rio Senac SP, ? pesquisador de cinema desde 1997. Ministra palestras e minicursos de cinema em faculdades e universidades, e ? professor titular de Comunica??o e Artes no Imes Catanduva (Instituto Municipal de Ensino Superior de Catanduva), no Senac Catanduva e na Fatec Catanduva. Foi redator especial dos sites de cinema E-pipoca e Cineminha (UOL) e do boletim informativo "Colunas e Notas". Desde 2008 mant?m o blog "Cinema na Web". Apresenta quadros semanais de cinema em r?dio e TV do interior de S?o e tem colunas de cinema em jornais e revistas de Catanduva. Foi j?ri em mostras e festivais de cinema, como Bag?, An?polis, Bras?lia e Goi?nia, e consultor do Brafft - Brazilian Film Festival of Toronto 2009 e do Expressions of Brazil (Canada). Ex-comentarista de cinema nas r?dios Bandeirantes e Globo AM, foi um dos criadores dos sites Go!Cinema (1998-2000), CINEinCAT (2001-2002) e Webcena (2001-2003). Escreve resenhas especiais para livretos de distribuidoras de cinema como Vers?til Home V?deo e Obras-primas do Cinema. Contato: felipebb85@hotmail.com
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