Tesis: A Manipulação do Olhar

Tesis: Morte Ao Vivo manipula o olhar do espectador contando a história de uma protagonista guiada apenas pelo o que vê, ou pensa (ou deseja) ver

31/05/2017 13:48 Por Jorge Ghiorzi
Tesis: A Manipulação do Olhar

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As imagens se sucedem. A sensação do movimento é uma miragem, uma ilusão de ótica provocada pela persistência da visão. A retina retém a visão por uma fração de segundo após sua percepção. Imagens projetadas a um ritmo superior a 16 quadros por segundo enganam o cérebro que acaba registrando o movimento onde ele não existe de fato. Este é o princípio do Cinema. Um engodo consciente.

Este artifício de manipulação do olhar está na base criativa do primeiro longa-metragem do cineasta espanhol, Alejandro Amenábar, o mesmo realizador de Os Outros e Mar Adentro. Realizado há mais de duas décadas, Tesis: Morte Ao Vivo (Tesis, 1996) manipula o olhar do espectador contando a história de uma protagonista guiada apenas pelo o que vê, ou pensa (ou deseja) ver, num misto de real e imaginário. O que pensamos estar vendo é tão ou mais ilusório quanto o que não podemos enxergar. Este é um tema que parece muito caro à Amenábar, que voltou a tratar do assunto, de forma diversa, em seu filme seguinte, Preso na Escuridão (Abre los ojos). Entre o abrir e o fechar dos olhos, um mundo inteiro se esconde. Ora revelado, ora oculto.

Em Tesis uma estudante de Cinema da Faculdade de Ciências da Informação de Madri, Angela (Ana Torrent), está desenvolvendo uma pesquisa para sua tese sobre a violência registrada em imagens e seus efeitos no comportamento das pessoas a elas expostas. Ela pede ajuda ao professor para ter acesso aos arquivos de vídeo da universidade. Disposto a ajudá-la, o professor decide pesquisar o acervo por conta própria e acaba descobrindo um compartimento secreto que guarda uma coleção de fitas de vídeo VHS (estamos nos anos 90!). Após assistir um dos vídeos o professor sofre um ataque cardíaco e morre. Angela resgata a fita de vídeo e descobre que trata-se de uma gravação caseira que mostra uma garota sendo torturada até a morte, registrada ao vivo, diante da câmera. Com ajuda de um colega de faculdade, Angela assume a missão de descobrir quem está por trás da produção daquele vídeo.

Tesis: Morte ao Vivo é um filme desenvolvido a partir de uma tese: a exposição e superexposição da violência pelos meios de comunicação (cinema, TV, mídia em geral). Tema já relevante há 20 anos, e muito mais ainda hoje, com a proliferação de imagens de violência gráfica, disseminadas massiva e indiscriminadamente pelas redes e dispositivos móveis. Como pano de fundo, e motor da narrativa, o filme de Amenábar se utiliza porém de um elemento fictício: a lenda urbana dos filmes “Snuff”, produções baratas, originadas no submundo, que exibem cenas de tortura e mortes, supostamente reais, registradas ao vivo, sem censura nem efeitos especiais.

A atração pelo mórbido consome o olhar da protagonista Angela, situação explicitamente definida na sequência de abertura que mostra um acidente no metrô. O desejo de ver a qualquer custo o corpo destroçado por um acidente na linha do trem supera qualquer racionalidade. Um desejo primal de testemunhar, apropriando-se da imagem como algo a ser conquistado. Lembremos que civilizações ancestrais temiam os efeitos da fotografia alegando que “roubavam” a alma, a essência da pessoa.

A levada do filme de Amenábar é de um thriller. Há uma ameaça, um suposto assassino e uma vítima potencial, elementos primordiais típicos de um suspense bem temperado. Aqui e ali, como qualquer exemplar do gênero, encontram-se furos de roteiro, incongruências que ferem a lógica e concessões demasiadas em favor do necessário ritmo crescente de inquietação e apreensão que se deseja provocar na plateia. Mas, absolutamente, isto não faz de Tesis um filme menor. Pelo contrário. Apenas reforça o controle do realizador sobre os destinos de sua obra. Amenábar manipula com habilidade todos estes elementos e nos entrega um filme eficiente em sua proposta de suspense e contundente na exploração de uma temática perturbadora.

Um destaque que faz a alegria de todos os cinéfilos é o reencontro com Ana Torrent, cuja imagem de garotinha ficou cristalizada em pelos menos dois clássicos dos anos 70, O Espírito da Colméia e Cria Cuervos, quando ela tinha cerca de dez anos de idade. Passados vinte anos, a reencontramos em Tesis, e descobrimos que seus expressivos grandes olhos negros permanecem lá, no rosto de uma respeitável atriz de 30 anos de idade. Na época de seu lançamento, Tesis: Morte ao Vivo foi exibido no Festival de Cinema de Gramado (RS), em 1996, com direito à presença da própria Ana Torrent na plateia.

 

Assista o trailer: Tesis

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Sobre o Colunista:

Jorge Ghiorzi

Jorge Ghiorzi

Bacharel em Jornalismo e pós-graduado em Marketing. Redator, roteirista e produtor de eventos culturais. Editor da publicação “Cine Guia Preview” (1995 – 2000) e do newsletter “Cine Guia Preview” (2009 – 2011). Produtor do Festival de Cinema de Gramado por 17 anos. Colaborou com críticas de cinema para jornais do interior do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Já publicou textos de cinema em diversos blogs e sites, como “Papo de Cinema”, “Facool” e “Movi+”, e também para a revista “Voto”. Criou a produtora cultural “Cine UM”, em 2009, que desenvolve uma programação de cursos livres de cinema em Porto Alegre e no interior do estado. Contato: jghiorzi@gmail.com

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