Sexo Para Todos os Lados
As aproximacoes entre Restif e Sade, para alem da diferenca de tons, surgem em rompantes
Numa época em que o sexo está para todos os lados, ler um antigo do século XVIII que se dedicou exasperantemente ao assunto é um exercício de ascese literária. O francês Restif de La Bretone escreveu Anti-Justine ou as delícias do amor (1798) para responder ao Justine de outro francês, Marquês de Sade, que ligava necessariamente dor e prazer; De La Bretone pretendia expor o puro prazer e na única recaída que teve em seu opúsculo, pede desculpas ao leitor e promete não cair novamente no erro: “Porém não haverá mais no resto da obra horror semelhante ao do monge Fodeamor. Os horrores a la Dsds são fáceis de apresentar. A obra-prima do gênio é a descrição de volúpia suave.” NOTA: Dsds é o apelido do Marquês de Sade utilizado por Restif.
Mas as aproximações entre Restif e Sade, para além da diferença de tons, surgem em rompantes: ambos utilizam uma nervura de detalhes eróticos que, mesmo neste século XXI banhado de carne, não deixa de espantar. Que fará o pornógrafo de hoje diante do texto de De La Bretone? Como Sade, Restif é um documentarista do sexo: elimina qualquer outro tipo de emoção que não a emoção sexual. A culpa está eliminada, o incesto está à solta, são tragados por uma densa e intensa poesia de Eros. “Contanto que eu fodesse uma cona jovem, qual o problema? Deitei-me nu. Encontrei tetinhas florescentes, uma coninha que se agitava. Desvirginei.” Restif é o descarado perfeito para nublar os olhares hipócritas. Sua verve irônica foi captada brevemente pelo cineasta italiano Ettore Scola quando o pôs como personagem da caravana real de Casanova e a revolução (1982); ali ele era vivido por Jean Louis Barrault e cruzava com outro libertino da época, o veneziano Giacomo Casanova, interpretado por Marcello Mastroianni; dialogavam sobre os tempos agitados e algumas coisas sobre suas próprias porcarias, embora Casanova àquela altura fosse mais memória em face da idade avançada.
(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)
Sobre o Colunista:
Eron Duarte Fagundes
Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro ?Uma vida nos cinemas?, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br
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