A Aproximação Poemática ao Filme

Jairo Ferreira somos todos nós que amamos o cinema. Ou o cinema que nos ama.

10/08/2017 10:22 Por Eron Duarte Fagundes
A Aproximação Poemática ao Filme

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Jairo Ferreira escreveu críticas de cinema que procuravam simular, na escrita, o estilo livre, delirante, cheio de neologismos vocabulares e sintáticos, que caracterizava os filmes que ele preferentemente abordava: as narrativas marginais, experimentais de um Rogério Sganzerla, Júlio Bressane, Andrea Tonacci, João Silvério Trevisan, Elyseu Visconti que vicejaram no Brasil nos anos 60 e 70. Era o que Jairo chamava cinema de invenção. Pois Cinema de invenção (1987) é o título de seu livro de ensaios que lança muitas luzes sobre aquelas produções que o interessavam, em muitas delas ele participou na produção dos filmes.

Num texto sobre o filme Mar de rosas (1978), de Ana Carolina, o crítico Jean-Claude Bernardet, opondo o delírio de Ana com a crônica sutil e aparentemente objetiva de Carlos Diegues em Chuvas de verão (1978), anotou: “Resumindo e simplificando, digamos que é preferível um cinema de tendência poética a um cinema de tendência sociologizante como forma de indagação da realidade.” Mas e a aproximação do crítico a este cinema mais poético? O cerebralismo de Bernardet ou o desgovernado ímpeto de Jairo? Bernardet é cerebral? Ou seria um cerebral em delírio? Jairo é até mais solto. Às vezes envereda por criações de linguagem mais ou menos ingênuas. Mas serve bem ao propósito de elucidar/translucidar/obscurecer algumas características do cinema brasileiro: de um determinado cinema brasileiro. Exposto sem pudores.

O texto de Jairo se mistura com textos de outros, sem solução de continuidade, sem aspas, quase como se o livro fosse uma montagem livre. Neste aspecto Cinema de invenção simula a linguagem de cinema: é a de um homem  de cinema. É preciso atenção para ver o que é de Jairo, o que é de outros nas linhas, e lá pelas tantas tudo se mistura, tornando a separação complicada na cabeça do leitor.

“Pois é, tanto faz filmar como não filmar, importante é pensar hoje para explodir amanhã.”

O cinema em êxtase, o cinema inventado, a invenção no cinema, o cinema como invenção (um invento), as palavras de Jairo buscando a imagem. Jairo somos todos nós que amamos o cinema. Ou o cinema que nos ama. “Ali por 1960 eu era um fanático frequentador de cinema e assistia indisciplinadamente a tudo que passava.” Jairo, um crítico da neurose de pensar sobre cinema. Como se nos dissesse: escreve com neurose e verás que neurose é invenção. Tudo muito diverso do que habitualmente lemos nos jornais. De maneira alguma um crítico para jornais: um crítico para a literatura no pensamento cinematográfico.

“Cinema de invenção se apóia na arte como tradição/tradução/transluciferação. Utiliza-se de todos os recursos existentes e os transfigura em novos signos em alta rotação estética: é um cinema interessado em novas formas para novas ideias, novos processos narrativos para novas percepções, que conduzam ao inesperado, explorando novas áreas da consciência, revelando novos horizontes do (im)provável.” A arte (por palavras, livros, ou por imagens, cinema ou pintura) é uma tradução, uma conversão em símbolos de pensamentos ou sentimentos. Para Jairo a questão é pôr uma nova linguagem para esta tradução. É o que fazem os filmes que ele admira. É o que ele faz no livro que tergiversa em torno destes filmes: uma aproximação poemática a estes filmes diferentes. Como um James Joyce da crítica de cinema: mais do que um Jorge Luis Borges.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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