A Narrativa no Túmulo

Anjos do universo é certamente um dos mais criativos e intensos romances destas primeiras décadas do século XXI

03/01/2018 11:18 Por Eron Duarte Fagundes
A Narrativa no Túmulo

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A literatura islandesa é praticamente desconhecida do público brasileiro. Língua pouco falada no mundo (os habitantes da Islândia são poucos e poucos se interessam por aprender islandês), a arte literária daquele país surge entre nós como um evento marginal da cultura. Einar Már Gudmundson foi o escritor islandês que esteve em Porto Alegre na última Feira do Livro da cidade e apresentou aos interessados, numa pequena palestra, na Sala Barbosa Lessa, no Centro Cultural CEEE-Erico Verissimo, seu romance Anjos do universo (Englar altheimsins; 1993); na palestra também se pôde ouvir seu tradutor, o gaúcho Luciano Dutra, que disse de seu desafio intelectual de estudar islandês e a literatura islandesa dentro de seu propósito de renovação mental dos ares culturais por aqui, longe da majoritária influência do inglês e do francês.

Anjos do universo é certamente um dos mais criativos e intensos romances destas primeiras décadas do século XXI. Sua originalidade nasce da utilização do ponto de vista utilizado, o do túmulo —e este túmulo tem dois sentidos: quem escreve o livro é uma personagem falecida; e a coisa toda se passa nestas espécies de tumbas que são os centros psiquiátricos em qualquer parte do mundo. A intensidade narrativa vem da maneira como o romancista islandês põe em cena este duplo ponto-de-vista tumular. Para o leitor destas plagas dizer que uma história é contada por um morto, logo surge à mente o clássico brasileiro Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), de Machado de Assis. Mas se Machado revela no introito do romance que a narrativa vem do túmulo, Gudmundsson só abre este fato no fim do livro: o início machadiano é pela morte do narrador-protagonista, enquanto os primeiros movimentos da história islandesa circulam pelas imagens de Kleppur, o sanatório-chave da vida de Páll, o esquizofrênico que conta sua vida e a de seus companheiros em Anjos do universo. Na palestra, questionado sobre a evocação do escritor brasileiro para iluminar uma reflexão sobre o romance islandês, Gudmundsson brincou com alguma seriedade: “Quem sabe eu não fui Machado de Assis em outra encarnação.”

Construído como uma pura ficção, Anjos do universo tem uma base real muito forte para o autor: está inspirado na vida do irmão de Einar, Pálmi Örn Gudmundsson, a quem o romance é dedicado; como o protagonista que narra Anjos do universo, o irmão de Einar sofreu de esquizofrenia a vida toda; então, as situações e as personagens do romance, consoante pareçam flutuar livremente no espírito narrativo, se ligam umbilicalmente à memória familiar do escritor. As primeiras cenas do livro evocam a primeira internação do protagonista e como esta entrada no universo dos doentes mentais o conduziu a uma lembrança de infância, quando ele viu um homem de meia-idade levar, desengonçadamente, pela rua, seu filho de uns vinte anos e, questionado pelo garotinho que os via, respondeu que estava indo internar o filho no Kleppur, o sanatório aonde muitos anos depois aquele mesmo garotinho perguntador viria ter. Os ciclos da loucura, dum ser para outro, duma geração para outra, passam-se assim ao longo do romance.

Há muita melancolia em vários trechos de Anjos do universo.

“Claro que seria bom poder dizer o que disse o filósofo alemão Hegel quando alguém afirmou que as suas teorias não correspondiam à realidade:
—Pobre realidade, não deve ser nada fácil para ela.
Escritores podem escrever isto.
Filósofos podem dizer isto.
Já nós, que estamos internados em sanatórios e instituições, não temos qualquer defesa quando nossas ideias não correspondem à realidade, pois, em nosso mundo, os outros é que têm razão e conhecem a diferença entre o certo e o errado.”

Em Anjos do universo a esquizofrenia parece ser vista um pouco como a alma da Islândia; lá pelas tantas o narrador vê estas fantasias das sagas como signos esquizofrênicos, os delírios ou os chamados sintomas positivos da doença. Além das fortes referências literárias de Gudmundsson, que passam por Franz Kafka ou Hegel, mas estão distantes da alacridade brasileira de Machado de Assis, há alusões ao cinema, como bom escritor do século do cinema: no dia em que são liberados para ir ao enterro dum interno, a turma de loucos vai ao cinema ver Simão do deserto, de Buñuel. Misturando sua proximidade afetiva com o assunto, e navegando por estas alusões culturais diversas, Einar demonstra sua classe de grande romancista ao equilibrar os diversos disparates de que se compõe sua obra: um equilíbrio que inclui as metáforas da demência em seus estado de controlado desequilíbrio —como um bom nórdico (penso no diretor de cinema sueco Ingmar Bergman). “Estou aqui, nas profundezas da eternidade, jazendo na frieza e na solidão” resmunga o narrador numa das frases do fim. Um louco no além-túmulo: mas tão perto de nós, de nossos mais arraigados modos —de perder a razão, de ser posto à margem.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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