A Realidade Construída

Li o opúsculo Apocalipse; Opinião Pública e Opinião Publicada (Apocalypse; 2009), um ensaio-relâmpago do francês Michel Maffesoli, bem no centro do furacão que despejou a tempestade de delações

25/01/2018 12:22 Por Eron Duarte Fagundes
A Realidade Construída

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Li o opúsculo Apocalipse; opinião pública e opinião publicada (Apocalypse; 2009), um ensaio-relâmpago do francês Michel Maffesoli, bem no centro do furacão que despejou a tempestade de delações da megafirma JBS em torno do presidente Michel Temer no Brasil. E é impressionante como as miniteses de Maffesoli se aplicam ao momento brasileiro: da maneira mais profunda, na forma das relações entre a mídia e os fatos, como se articula uma narração dos fatos e como as narrações ondulam facilmente pelos ventos, que são inconstantes e, para usar um termo usado numa sentença judiciária, às vezes negligentes.

A primeira frase de Apocalipse ataca o cerne: “A confusão das palavras acaba sempre acarretando a das coisas.” E depois perturba o coração do verbo: “Assim, nos períodos de mudança, é urgente encontrar palavras, senão absolutamente precisas, ao menos o menos falsas possíveis.” (Pode-se aproximar esta teoria do filósofo francês daquilo que diz o crítico brasileiro de cinema José Carlos Avellar em seu livro A ponte clandestina, 1995: “O uso de uma mesma expressão para marcar a característica exterior mais aparente da imagem define apenas isto mesmo: a aparência: o plano sequência dos filmes de Sanjinés (o plano sequência integral, o plano sequência andino) é fundamentalmente diferente de todos estes seus primos mais ou menos distantes”). Segundo Maffesoli, estamos imersos num mundo de palavras que são autênticos nadas, significam coisa alguma, pois reiteram para situações atuais situações de antanho, onde os elementos eram outros. As palavras, que deveriam elucidar, complicam. O senso comum da opinião pública é confundido pela barbúrdia da opinião publicada, onde alguns escrevedores exclamam à multidão que vai em passo cadenciado: “Silêncio, estamos ronronando!”

Com resultado, “a flexibilidade existencial se esclerosa e a vitalidade se inverte em desejo de morte.” Com paciência e extrema maturidade, Maffesoli arma a teia do pensamento social. E cabe a Apocalipse esta definição que está dentro dele e o subscreve por assim dizer: “não há livros bons que não sejam bravos.”

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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