O Cheiro do Tempo

Em todos os sentidos, O Ateneu (1888), romance de Raul Pompéia, apresenta retratos de época. É uma narrativa em que o cheiro de seu tempo é forte

22/12/2018 23:25 Por Eron Duarte Fagundes
O Cheiro do Tempo

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Em todos os sentidos, O Ateneu (1888), romance de Raul Pompéia, apresenta retratos de época. É uma narrativa em que o cheiro de seu tempo é forte; isto não impede a sobrevivência de seu poder de fascinar  o leitor cento e trinta anos depois; pede-se tão-somente que se tenha familiaridade com um texto de refinamento exigente. Em todos os sentidos um livro que tresanda a seu século: a história passada num internato é tipicamente novecentista, com seus costumes e comportamento; a linguagem do escritor, brilhante sempre, artificiosa ao mesmo tempo, vai por torneios estruturais e sintáticos que evocam imediatamente seus pares de então, uma luz datada e no entanto apaixonante talvez em boa parte em função desta localização no tempo histórico.

Na contramão do texto de Machado de Assis, “o jejum das metáforas” como definiu Augusto Meyer, Pompéia é um autor barroco, dono de um verbo altissonante como o padre Vieira, mas acrescido de um mundanismo nervoso; todavia estamos longe de um formalista vazio. O Ateneu é um livro crítico; inspirado nas experiências do próprio escritor num internato carioca, narrado na primeira pessoa pela personagem de Sérgio, o romance faz do colégio um campo de observação para analisar a sociedade, as pequenas relações escolares são substratos das relações que, então como agora, o leitor observa nas estruturas de poder e nos bancos da hipocrisia que estão no lado de fora do colégio, no universo social.

De certa forma, O Ateneu tem pendores para a escola naturalista; é mais Émile Zola que Gustave Flaubert, mas não é daqueles imitadores superficiais como Júlio Ribeiro, que cometeu um tortuoso A carne (1888). O que faz de Pompéia um artista paranaturalista, assim  como ocorria ao português Eça de Queirós, são certas características plásticas da linguagem. Num outro vértice de sua originalidade, O Ateneu antecipa o romance-ensaio do século XX. Senão como explicar a inserção de suas considerações estéticas na parte final do capítulo VI? Sem perder a embocadura narrativa, o narrador interrompe o fluxo de suas lembranças para teorizar. Teorizar sobre o que está fazendo na verdade. “Arte, estética, estesia é a educação do instinto sexual.” Antes de Freud, quem se atreveria a escrever isto? Caberia na abertura dum capítulo proustiano? Questionador, irritante e petulante, o narrador de Pompeia cutuca: “Qual a missão da arte? Originária da propensão erótica fora do amor, a arte é inútil, —inútil como o esplendor corado das pétalas sobre a fecundidade do ovário. Qual a missão das pétalas coradas? De que nos serve a primavera ser verde? As aves cantam. Que se aproveita do cantar das aves? A arte é uma consequência e não um preparativo. Nasce do entusiasmo da vida, do vigor do sentimento, e o atesta. Agrada sempre, porque o entusiasmo é contagioso como o incêndio. A alma do poeta invade-nos. A poesia é a interpretação de sentimentos nossos. Não tem por fim agradar.” Visionário? O Ateneu vem com o cheiro do tempo, um cheiro de várias tumbas, para iluminar questões de hoje.

Não há negar: a despeito do gosto de Pompéia para a excessiva elaboração verbal, as frases têm uma precisão descritiva que de quando em quando espanta. Com sós vinte e cinco e anos de idade, Pompéia atingiu em O Ateneu uma maturidade um pouco inesperada, ainda que tenhamos alguns casos na literatura, como os poemas espantosos escritos por Arthur Rimbaud aos dezessete anos e a novela A fanfarlo (1847), que outro francês, Charles Baudelaire, extraiu de seus vinte e seis anos de idade. Mais sutil e elíptico que seus contemporâneos de feição naturalista, O Ateneu se acerca da inevitável questão do homossexualismo em internatos, de modo claro mas reticente, distante da crueza de Eça por exemplo ao pôr sexo na religião. “quando, sem transição, o companheiro chegou-me a boca ao rosto e falou baixinho.” A provocação de Pompéia, apesar de seu verbo barroco, é no fundo um murmurar áspero.

Sem um enredo romanesco, valendo-se da linguagem para arrolar fatos do passado, o romance de Raul Pompéia tem uma estrutura quase documental, se lhe retirarmos as forças simbólicas da língua em que o temperamento do escritor o esmera. Uma espécie de acerto de contas de um jovem com o início de sua adolescência, O Ateneu é muito mais que isto graças à privilegiada mente artística de Pompéia; o incêndio do colégio, descrito com ganas, coroa literariamente este pretendido acerto de contas.

Em todos os sentidos, os retratos de época dO Ateneu, dispostos como quadros numa galeria de grande uniformidade, sobrevivem ao funeral das horas.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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