ESTREIAS DO MES NOS CINEMAS E NO STREAMING
Confira as dicas de Felipe Brida, tem excelentes estreias
ESTREIAS DO MES NOS CINEMAS E NO STREAMING
Living the land
Premiado com o Urso de Prata de melhor direção no Festival de Berlim (para o diretor chinês Huo Meng, em seu segundo filme, que traz traços do anterior, “Guo Zhao Guan”), “Living the land” (em português, “Cultivando a terra” ou “Vivendo a terra”) é um drama cativante que acompanha um longo processo de rituais de vida e trabalho de uma numerosa família na China rural dos anos 90. Filhos, pais, netos, avós e tios trabalham num pequeno lote de terras, onde também residem. Do nascer ao pôr-do-sol, sob sol e sob chuva, a família de agricultores cultiva trigo, matéria-prima de onde tirarão o sustento. Percebem que aldeões da região migraram para cidade em busca de novas oportunidades, porém optam em permanecer ali. Um dos filhos daquele núcleo pretende se casar e ir embora para a metrópole, deixando a família. O filme se mostra na essência daqueles agricultores durante o ciclo de um ano, acompanhando-os em suas passagens/ritos, como casamento e funeral, além dos conflitos cotidianos. É uma fita de arte contemplativa que transforma nosso olhar, registrando um contexto específico de uma época, a da abertura da China na virada dos anos 80 para os 90, com as reformas econômica e social, a mecanização do campo, a migração da área rural para a cidade e o fim das tradições milenares devido à modernidade. O olhar do diretor Meng (também roteirista e montador do longa) é ao mesmo tempo íntimo e panorâmico – ele cria esse embate cênico, com cenas nos detalhes e de repente longas tomadas abertas da propriedade de terras onde a família mora. Há muitas sequências de silêncio, sem trilha ou diálogos, só com a abundante paisagem rural à nossa frente. Personagem carismático do filme, Chuang, de 10 anos, aquele que permanece em sua aldeia enquanto tantos partem para as cidades, funciona como metáfora da resistência e da perda – e o menino é a representação do diretor do filme quando menor, já que a história é inspirada em sua família, criada no campo. A fotografia das terras agrícolas são verdadeiros quadros, uma pintura belíssima, sendo um grande acerto de filmagem, que traduz o que o diretor pretendia passar (e lembrar). Um filme tocante, que mexeu comigo - fiquei maravilhado e também refletindo por horas sobre essa bonita obra cinematográfica. Está disponível nos principais cinemas brasileiros, pela Autoral Filmes.
Paulo e Eliana
Rodado ao longo de 13 anos (2008–2021), o documentário “Paulo e Eliana” revela com rara sensibilidade o cotidiano de dois sobreviventes do surto de poliomielite que atingiu São Paulo nos anos de 1960. Paulo Henrique Machado e Eliana Zagui faziam parte de um grupo de 20 pacientes infantis internados no Hospital das Clínicas (HC) de São Paulo afetados pela pólio. Tetraplégicos, eles foram os únicos que resistiram à doença, vivendo para sempre em uma cama em um mesmo quarto no HC, dependentes de respiradores artificiais. Paulo e Eliana desenvolveram forte vínculo de amizade e transformaram essa condição em matéria de reflexão sobre resistência e desejo de viver. O filme (lançado em 2024, pouquíssimo comentado, e que descobri por acaso na plataforma do Sesc Digital) acompanha a rotina da dupla inseparável, incluindo suas conquistas fora das paredes do hospital. Paulo tornou-se youtuber, criando um canal geek sobre cinema e música e que também compartilhava experiências no HC – mantendo-se ativo até sua morte em 2020, aos 51 anos; já Eliana, encontrou na arte e na escrita uma forma de expressão: pintava e escrevia com a boca, publicou livros, até que em 2019 deixou o hospital para se casar, mudando-se para a casa do marido em Sumaré, no interior paulista. Mesmo diante da dificuldade de locomoção conseguiram viajar, frequentar shows musicais e experimentar pequenas vitórias. O longa acompanha a vida hospitalar como espaço de formação, mostrando a amizade de Paulo e Eliana como uma relação de cumplicidade em um lugar marcado por dependência e isolamento. Em frente às câmeras, mostram como são: sonhadores, brincalhões, criativos e generosos. É uma história de amor pela vida, que emociona os mais sensíveis, e serve como convite à reflexão sobre inclusão e sobrevivência. Lançado em 2024, foi produzido pela Canal Aberto e 11: Onze Filmes, com direção de Neide Duarte e Caue Angeli. Está disponível gratuitamente na plataforma do Sesc Digital, em https://sesc.digital
Arco
Indicado ao Oscar de melhor animação neste ano, “Arco”, primeiro longa dirigido por Ugo Bienvenu, com codireção de Gilles Cazaux, que foi do departamento de arte de “Planeta fantástico” (1973) e da série “As aventuras de Tintim” (1991-1992), acaba de chegar aos cinemas pela Mares Filmes, em parceria com a Mubi. Coprodução França, Reino Unido e EUA, é um dos filmes mais bonitos, coloridos e sensíveis da safra atual. Desde sua estreia mundial no Festival de Cannes, ele tem chamado atenção pela combinação do visual, com elementos gráficos marcantes, e o roteiro delicado, que em muitos aspectos lembra “ET – O extraterrestre” (1982). A animação acompanha a jornada de Arco, um menino de 10 anos que mora com os pais em outro planeta, num futuro distante (perto do ano 3000). As casas do futuro ficam em comunidades suspensas por plataformas de metal, acima das nuvens. Arco tem o sonho de fazer seu primeiro voo; ele bota sua capa de arco-íris, mas uma tentativa inesperada o lança em uma viagem no tempo, transportando-o para o ano de 2075. Ele cai em um mundo desconhecido, não entende para onde foi. Ele está na casa de uma menina de sua idade, chamada Iris, que mora com um robô faz-tudo, Mikki, em uma cidade protegida por uma redoma de vidro. Os três se tornam próximos, embarcando em uma missão para devolver Arco ao seu lar – no entanto serão caçados por um trio de exploradores e cientistas que detêm um objeto importante do menino do futuro, que sem ele não poderá viajar no tempo para voltar para casa. A estética de “Arco” é um espetáculo de encher os olhos: criado inteiramente em animação 2D, reúne cores vibrantes, que evocam a leveza da infância e, ao mesmo tempo, a estranheza de um futuro tecnológico. A paleta cromática funciona como recurso narrativo: tons quentes remetem à esperança e ao vínculo humano, enquanto os frios reforçam a atmosfera futurista e a solidão das cidades protegidas por redomas. A fluidez dos traços e a composição das cenas criam uma sensação de movimento constante, como se o próprio tempo fosse uma personagem. Essa escolha estética confere ao filme identidade visual particular, que faz uma transição entre a tradição da animação artesanal com uma fita contemporânea e imersiva. É uma aventura fantástica, também uma reflexão para jovens e crianças sobre o tempo, a memória e os laços da infância, que celebra a imaginação. Segundo o diretor Ugo Bienvenu, roteirista do filme, ele o escreveu na pandemia da covid, trazendo dois personagens solitários em suas casas (uma referência ao isolamento social provocado pelo vírus) e buscando levar ao público jovem uma mensagem de otimismo em tempos de crise. Além da indicação ao Oscar e ao Globo de Ouro de animação, foi nomeado ao Bafta de melhor filme para crianças, cinco indicações ao César, incluindo melhor animação, cinco indicações no Annie Awards, e o prêmio de melhor filme no maior festival de filmes infanto-juvenis do mundo, o Annecy. A produção é assinada pela atriz Natalie Portman, que comprou e investiu na ideia. Para ver, encartar-se e se emocionar.
A sapatona galáctica
Outra animação que segue nos cinemas, desde o dia 12 de fevereiro, esta para adultos, é a fita australiana “A sapatona galáctica”, premiada em diversos festivais pelo mundo afora, inclusive no Brasil. Dirigido pela dupla Emma Hough Hobbs e Leela Varghese, combina comédia, aventura e elementos do mundo da ficção científica em uma história doidinha de um romance queer intergaláctico, não deixando de levantar a bandeira da representatividade como manifesto público. A protagonista é Saira, uma princesa espacial lésbica, bastante tímida, recém-abandonada pela ex-namorada, Kiki, uma caçadora de recompensas. Quando Kiki é raptada por criaturas perigosas (os “homeliens”, um grupo de homens héteros valentões), Saira decide resgatá-la, seguindo uma longa viagem entre dois mundos com uma nova amiga, uma cantora pop não-binária. As duas, numa nave capenga, cheia de problemas técnicos, cruzará a “gayláxia”, obrigando Saira a enfrentar medos e limitações. O filme é um barato, um caos danado, com diálogos engraçados, alguns apimentados, e forte comentário social do universo queer. Integra a safra das animações contemporâneas ousadas, escapando das convenções e banalidades para levar uma discussão sobre amor gay, respeito, identidade, pertencimento e autoconfiança – a protagonista, em vez de armas, usa o discurso para lutar (algo muito representativo e demolidor). As personagens são divertidas, a aventura é perspicaz, a estética é um desbunde de cores chocantes e formas inusitadas. A irreverente animação percorreu um circuito prestigiado de festivais internacionais, como Berlim, Sydney e Rio, onde conquistou o Prêmio Félix no ano passado, dedicado a produções nacionais e internacionais de temática LGBTQIAPN+. Outro prêmio que recebeu no Brasil foi o de melhor Filme Internacional pelo público, no MixBrasil, festival que existe há mais de 30 anos voltado à diversidade. Ainda nos cinemas pela Synapse Distribution.
Feliz aniversário em Belgrado
Estreou no fim de semana pela Pandora Filmes a cultuada comédia dramática da Sérvia, estreia da diretora e roteirista daquele país, Milica Tomović. Lançado em 2021 na seção Panorama do Festival de Berlim (concorrendo ao Teddy Bear, que premia filmes de temática gay), traz uma trama divertida sobre uma festa de família que dá errado. O ano é 1993, na capital da então Iugoslávia, Belgrado, num período marcado pela desintegração do país, com protestos pelas ruas, sanções internacionais, ataques por bomba pela OTAN e hiperinflação. É um período turbulento dentro e fora, e para o povo, caótico nas questões sociais e políticas. Mesmo em face às dificuldades, Marijana (Dubravka Kovjanic) quer manter a família unida e para isto acontecer, organiza a festa de oito anos da filha Minja (Katarina Dimic). O aniversário, simples e improvisado, ganha cores com fantasias das Tartarugas Ninja, um bolo feito com margarina barata e refresco em garrafas reaproveitadas. Enquanto as crianças brincam sem limites, os adultos se reúnem na cozinha, e ali começam discussões políticas, flertes, bebedeira e “lavação de roupa suja”, revelando tensões e afetos de uma geração que presenciava em tempo real o colapso da Iugoslávia (que se desmembraria, entre 1991 e 1995, em sete países, como Croácia, Macedônia do Norte e Sérvia). A diretora, nascida em 1986 na antiga Iugoslávia, conta que há no filme lembranças de sua infância (podendo ser ela a garotinha Minja), ou seja, fez uma obra nostálgica, com críticas sociais e um humor mordaz. Há um paralelo com os estranhos tempos atuais, de guerras avassaladoras - a região onde a diretora vive, nos Balcãs, está colada à Ucrânia, atacada pela Rússia desde 2014. Filme de arte bem posto, atual, que mexe com nossos sentidos.
Embaixo da luz de neon
Indicado ao Oscar de melhor documentário na edição deste ano, o profundo e emocionante filme acompanha a intimidade das poetisas Andrea Gibson e Megan Falley, focando no diagnóstico de câncer incurável de uma delas. Revela uma jornada marcada por humor, poesia e amor inabalável em meio ao penoso tratamento oncológico de Andrea (que era também ativista em prol dos direitos LGBTQIAPN+). A fotografia no interior da residência do casal, com um brilhante jogo de luzes, reforça as imagens delicadas do carinho entre as duas mulheres, fazendo do longa uma obra sincera, que nos toca e faz encher os olhos de lágrimas. É uma poesia visual que metaforicamente remete ao trabalho delas (que escrevem poemas). O diretor Ryan White, de “Boa noite Oppy” (2022), constrói uma história difícil, mas que equilibra leveza e dramaticidade, mostrando como o casal transforma a mortalidade em celebração da vida. O título faz referência à ideia de encontrar beleza mesmo em tempos sombrios. Após conquistar prêmios em festivais internacionais, como Sundance, Seatlle e Cleveland, estreou na Apple TV em novembro de 2025. É forte candidato para ganhar o Oscar este ano, um filme de abordagem diferenciada, muito espirituoso, que não se concentra apenas em mostrar a doença da personagem retratada, e sim como ela ressignifica a dor e a proximidade da morte em algo que sublima a própria existência.
Sobre o Colunista:
Felipe Brida
Jornalista, cr?tico de cinema e professor de cinema, ? mestre em Linguagens, M?dia e Arte pela PUC-Campinas. Especialista em Artes Visuais e Intermeios pela Unicamp e em Gest?o Cultural pelo Centro Universit?rio Senac SP, ? pesquisador de cinema desde 1997. Ministra palestras e minicursos de cinema em faculdades e universidades, e ? professor titular de Comunica??o e Artes no Imes Catanduva (Instituto Municipal de Ensino Superior de Catanduva), no Senac Catanduva e na Fatec Catanduva. Foi redator especial dos sites de cinema E-pipoca e Cineminha (UOL) e do boletim informativo "Colunas e Notas". Desde 2008 mant?m o blog "Cinema na Web". Apresenta quadros semanais de cinema em r?dio e TV do interior de S?o e tem colunas de cinema em jornais e revistas de Catanduva. Foi j?ri em mostras e festivais de cinema, como Bag?, An?polis, Bras?lia e Goi?nia, e consultor do Brafft - Brazilian Film Festival of Toronto 2009 e do Expressions of Brazil (Canada). Ex-comentarista de cinema nas r?dios Bandeirantes e Globo AM, foi um dos criadores dos sites Go!Cinema (1998-2000), CINEinCAT (2001-2002) e Webcena (2001-2003). Escreve resenhas especiais para livretos de distribuidoras de cinema como Vers?til Home V?deo e Obras-primas do Cinema. Contato: felipebb85@hotmail.com
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