Onde Esta o Povo Trabalhador?
Coronel Delmiro Gouveia pode ter perdido parte de seu pique hist?rico na aspereza dos anos
Geraldo Sarno e seu roteirista Orlando Senna, para montar a ficção reflexiva de Coronel Delmiro Gouveia (1978), foram em busca, nos locais onde viveu o indivíduo que serviria de base para a personagem do filme, das criaturas que conheceram este empresário nordestino —liberal, populista, nacionalista— na virada do século XIX para o XX. Isto não é somente uma intuição ou informação que se tem sobre o filme; sua realidade consta do próprio depoimento escrito de Senna: “No decorrer de pesquisas realizadas na região de Paulo Afonso (uma das fases importantes do filme Coronel Delmiro Gouveia), entrevistamos —Geraldo Sarno e eu— várias pessoas que conviveram com o industrial assassinado.” (Coronel Delmiro Gouveia: roteiro do filme, 1979). É uma destas pessoas entrevistadas que vai abrir o filme, num prólogo antes dos créditos iniciais, uma parte documental para aproximar a ficção que se verá, da realidade investigada: é um velho nordestino que fala para a câmara, alguém que no começo do século XX trabalhou para Delmiro Gouveia, alguém que elogia Delmiro, saudoso, lembrando, em frases de estrutura popular sincopada, que antes de Delmiro chegar por ali a forme era muita, depois ninguém mais passou fome. Assim, o filme de Sarno faz uma ponte afetuosa entre o trabalhador do povo e o empreendedor brasileiro que se propõe retratar. No fim do filme, após vários depoimentos de ficção (as mulheres de Gouveia, seu assistente na empresa), uma fala, também de ficção, que se aproxima do documental da primeira cena: é o testemunho de Zé Pó, vivido por José Dumont, um operário de Delmiro, como o velho verdadeiro do início; o discurso final de Zé Pó, exaltando a força do povo trabalhador, restitui a ligação que estava na cena de abertura, o empresário nacionalista e os retirantes da caatinga que se dispõem a ajudar o empresário a construir o seu país.
O roteiro escrito de Coronel Delmiro Gouveia nada diz sobre a fala do operário real que abre o filme. O roteiro começa mesmo com a festa da virada do século na casa da personagem central. Começa com a expectativa do grupo ali reunido com os ponteiros do relógio. E com as exclamações: “Ao século XX!” “A Delmiro Gouveia!” “Ao Brasil!” No tempo seguinte da projeção temos o desenvolvimento da história de um homem autenticamente brasileiro, que produziu coisas em torno duma fábrica e duma usina nacional, enfrentou a voracidade do incipiente capital estrangeiro e acabou sendo assassinado, ao que tudo indica por seu nacionalismo sem concessões.
Construído um pouco como um rol de depoimentos sobre a personagem (neste tom documental que um certo cinema da época emprestava à encenação que recria certas coisas da vida), encenando também as coisas com uma ingenuidade característica daqueles tempos nestas aproximações, Coronel Delmiro Gouveia pode ter perdido parte de seu pique histórico na aspereza dos anos. Mas apresenta uma sobrevivência admirável nas relações que propõe dentro dos paradoxos de sua personagem.
(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)
Sobre o Colunista:
Eron Duarte Fagundes
Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro Uma vida nos cinemas, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br
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