A Captura do Esplendido Mundo Viscontiano
Luchino Visconti pertenceu a nobreza italiana mas nunca se encastelou as circunscricoes deste seu universo familiar
A Captura do Esplendido Mundo Viscontiano
Para meu amigo André Kleinert
Luchino Visconti pertenceu à nobreza italiana mas nunca se encastelou às circunscrições deste seu universo familiar. Nele, o artista sempre foi mais forte que o indivíduo de uma classe social. Seus inícios se ligaram ao neorrealismo italiano, pois as premissas desta escola lhe permitia estar próximo do povo, das classes menos favorecidas. Sem nunca abdicar do amplo mundo cultural que o formou. Luchino Visconti: o fogo da paixão (Luchino Visconti – les feux de la passion; 1987), um estudo em forma narrativa do mundo humano e cinematográfico do realizador, escrito pela francesa Laurence Schifano, capta toda a paixão de filmar que caracterizou um homem ao longo de sua vida.
Ao longo de sua exposição, minuciosa e apaixonada, a analista faz diversas referências culturais, notadamente literárias, a que nem todo leitor terá tido acesso; várias personagens cruzam as páginas do livro, Thomas Mann, Marcel Proust, André Gide, o crítico cinematográfico Umberto Barbaro, quem leu estes sujeitos poderá compor com mais agudeza o mosaico de uma época escrito pela Schifano, mas não tê-los lido não é um impedimento para que a leitura se realize plenamente. Luchino Visconti: o fogo da paixão tem ares de um romance de Stendhal, a que Visconti chegou mais objetivamente com Sedução da carne, mas a narrativa ensaística assume mais intensamente a vertigem do texto de Proust, a busca do tempo perdido, do homem perdido em seu tempo, das convulsões do tempo na mente de um homem. “Horst lembra-se de que Visconti tinha o hábito de levar para todo lado três livros encadernados de couro vermelho, em papel-bíblia, a fim de poder tê-los sempre consigo: um volume da Busca, outro de Morte em Veneza, e outro dos Falsos moedeiros: o Thomas Mann da tentação homossexual; o Proust das raízes e da família adorada e, como um antídoto, o Gide da ruptura, do elogio do bastardo, da família odiada.” Sabe-se que, durante toda a sua vida, Visconti sonhou com a adaptação da totalidade do romance-rio de Proust, com suas evocações em milhares de páginas; não topou produtores para investir no monumental projeto. O livro de Schifano resgata esta frustração viscontiana com engenho, quase acoplando certas coisas do estilo de filmar de seu objeto de estudo a um estilo de escrever que parte de Proust e chega em alguns momentos a André Gide, onde os “moedeiros falsos” encontram os “barões de Charlus”.
A ensaísta navega por certas perplexidades inevitáveis para o temperamento fílmico de um artista como Visconti. “Quando estreia A aventura, em 1960, foi ver o filme, com Alain Delon, saiu perplexo: aquele universo permanece-lhe estranho. A problemática intelectual da ‘incomunicabilidade’, então em moda, a frigidez sentimental que invadia as telas e os romances, tanto na Itália como na França – seria isso mesmo, a modernidade?” E sua essência, no filme O leopardo (1963): “quanto a Visconti e a Suso Secchi d’Amico, decidiram concentrar todas as mudanças que ocorreram na sociedade italiana entre 1860 e 1862 na sequência única, ao mesmo tempo ‘impiedosamente crítica’ e tão liricamente proustiana que é o famoso baile final.”
Pode-se ler o livro sobre Visconti, e também ver os filmes de Visconti, sem ter mergulhado nos muitos livros que sustentam tanto o ensaio da francesa quanto a obra cinematográfica do italiano. Haverá sempre prazer: as sinuosas curvas de raciocínio do livro cativam, o barroquismo refinado dos filmes seduz. Mas quem possa ter tido acesso a tudo o que a Schifano cita ou àquilo em literatura de que se vale Visconti como leitor voraz terá uma percepção diversa das coisas desdobradas na mesa do pensamento cinematográfico. Não melhor nem mais aguda: só diversa.
(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)
Sobre o Colunista:
Eron Duarte Fagundes
Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro ?Uma vida nos cinemas?, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br
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