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O que importa não é o que acontece em Trainspotting, mas como acontece. E isso ninguém é capaz de transmitir com palavras

10/04/2017 00:06 Por Bianca Zasso
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Os leitores mais alertas as notícias sobre cinema já devem saber, mas informação nunca é demais. Desde que foi anunciado, a sequência de Trainspotting, filme do diretor Danny Boyle lançado em 1996, causou discussões. Os apaixonados pela história de Renton e seus amigos sempre às voltas com heroína tinham suas dúvidas quanto a necessidade de um novo capítulo e quem não era nem nascido nos anos 90 foi pesquisar o que era aquela trama tão comentada. Esta que vos escreve se inclui num meio termo entre um e outro, já que quando Trainspotting foi lançado ela tinha 9 anos, mas logo ali, na adolescência, ela teria um contato bastante importante com o filme. Por isso, antes de descobrir o que aconteceu com os personagens 20 anos depois, resolvi me aventurar novamente no ponto de partida e dividir minhas impressões.

Logo nas primeiras cenas, o sotaque escocês. Não é tão comum nas telonas e talvez por isso seja a lembrança mais vívida na mente do público. O discurso de abertura, onde está presente a frase que foi usada no material de divulgação do filme, ganha um novo fôlego. “Escolha viver” pode até soar como material de autoajuda, mas é o esconderijo da falta de perspectivas de Renton e seus amigos. Suas tentativas de largar as drogas fazem a torcida do espectador crescer. Renton assume o posto de herói. Falho, mas herói. E justamente por ser falho, herói de verdade. Herói com o dedo em riste diante de nossas feridas. Ele, Irvine Welsh (autor do livro que deu origem ao roteiro) e todos nós sabemos que, por mais que nosso desejo seja ser o Super-Homem ou a Mulher Maravilha, somos mortais de carne, osso, alma e sentimento. Errar é nosso destino, em diferentes níveis.

A trilha sonora, uma salada de rock, pop e eletrônico, faz o pano de fundo das viagens prazerosas dos “baques” de heroína e também das tentativas de mudança de rotina de Renton. A mistura de cenas extremamente realistas com fantasias contribui para que, apesar do mundo de Trainspotting parecer muito verdadeiro, estamos diante de um filme. A sequência da crise de abstinência de Renton, apesar das alucinações clichês, ainda provoca sorrisos na plateia.

Trainspotting não envelheceu, isto é fato. Se a questão do consumo de drogas fez parte do público torcer o nariz, não se pode sair ileso das alegorias cênicas criadas por Boyle e sua equipe. Aliás, são os enquadramentos e as sacadas do roteiro que mantem acesa a chama do filme mesmo depois de duas décadas. Como esquecer a busca de Renton pelos supositórios de ópio no pior banheiro da Escócia? E sua overdose embalada por Perfect day, do Lou Reed? Aos alérgicos a spoilers, fica a explicação de que o que importa não é o que acontece em Trainspotting, mas como acontece. E isso ninguém é capaz de transmitir com palavras.

Escolha viver. Escolha rever Trainspotting.

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Sobre o Colunista:

Bianca Zasso

Bianca Zasso

Bianca Zasso é jornalista e especialista em cinema formada pelo Centro Universitário Franciscano (UNIFRA). Durante cinco anos foi figura ativa do projeto Cineclube Unifra. Com diversas publicações, participou da obra Uma história a cada filme (UFSM, vol. 4). Ama cinema desde que se entende por gente, mas foi a partir do final de 2008 que transformou essa paixão em tema de suas pesquisas. Na academia, seu foco é o cinema oriental, com ênfase na obra do cineasta Akira Kurosawa, e o cinema independente americano, analisando as questões fílmicas e antropológicas que envolveram a parceria entre o diretor John Cassavetes e sua esposa, a atriz Gena Rowlands. Como crítica de cinema seu trabalho se expande sobre boa parte da Sétima Arte.

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