O Botão de Pérola

Documentário sobre a História do Chile contada a partir das profundezas das águas do litoral do país, um dos mais extensos e exóticos do mundo, que esconde mistérios milenares

28/12/2017 07:31 Por Felipe Brida
O Botão de Pérola

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O Botão de Pérola (El botón de nácar). Chile/França/Espanha/Suíça, 2015, 82 minutos. Documentário. Dirigido por Patricio Guzmán. Distribuição: Instituto Moreira Salles (IMS)

O Instituto Moreira Salles lançou recentemente mais um grande documentário na coleção de DVDs do IMS, “O botão de pérola” (2015), vencedor do Urso de Prata no Festival de Berlim em 2015. Uma obra dura e reveladora sobre o Chile trazida às claras através de uma incansável viagem pelos quatro mil quilômetros de mar que banham o país, que escondem as vozes dos indígenas massacrados na Patagônia e dos presos políticos da ditadura do governo Pinochet, sob a ótica de um diretor visionário e engajado, Patricio Guzmán.

Anteriormente o cineasta realizou sua irretocável obra-prima, “Nostalgia da luz” (2010), que antecede fatos contados aqui – “O botão” vira um díptico de “Nostalgia”, na busca em desvendar as tragédias sociais cometidas ao longo do tempo no país, em épocas remotas e contemporâneas.

Em “Nostalgia da luz”, Guzmán aviva o contato com a terra, no solo árido do deserto do Atacama, onde astrônomos observam o encantador céu chileno, enquanto, abaixo dos pés dos pesquisadores, centenas de corpos de desaparecidos políticos na ditadura Pinochet repousam escondidos; em “O botão de pérola”, ele sai da terra e leva a câmera ao mar, que também sepulta vidas, as dos primeiros indígenas, os kawésqar, massacrados pelos brancos, e as dos desaparecidos políticos. A água, segundo Guzmán, tem memória, voz e sentimento, por isto ela se torna testemunha poderosa da História, merecendo atenção como um personagem a ser ouvido.

De forma simbólica, em narrativa de ensaio, com narração pausada, pautada pela sinestesia, o filme registra esses fatos com seriedade, angústia e poesia, dividido em três momentos: abre com a geografia do país, composta por paisagens fora do comum, abrigando vulcões, glaciares, deserto e montanhas; segue para a tragédia dos nômades, que ali viveram há 10 mil anos e foram exterminados pelos navegadores; e fecha com as práticas de tortura, morte e desaparecimentos no regime ditatorial de Pinochet, de 1973 a 1990 – muitos subversivos políticos acabaram lançados ao mar com trilhos de trem amarrados ao corpo (há cenas fortes de reconstituição dos assassinatos e desova no oceano, com imagens reais de corpos localizados). Neste momento aparece o botão do título, um vestígio intrigante encontrado no fundo do mar, associado a um desaparecido.

No documentário, gravado entre 2012 e 2015, sentimos a dualidade da água, fonte de vida e organismo de clamor dos martirizados, objeto de pesquisa de longo tempo do diretor, que foi preso na temível ditadura chilena, ameaçado de fuzilamento e exilado em países como Cuba, França e Espanha - quase toda sua filmografia relaciona-se ao fim do governo democrático de Salvador Allende e ao devastador governo autoritário de Augusto Pinochet.

Para autenticar o registro histórico desta obra monumental, Guzmán entrevista juízes, autoridades, o notório poeta Raul Zurita e gerações recentes dos primeiros moradores do Chile, indígenas isolados nos Andes e na Patagônia, conhecidos como kawésqar, resultando como um dos melhores documentários do ano passado.

Além de ganhar o Urso de Prata, concorreu ao Urso de Ouro no Festival de Berlim, ganhando lá também o prêmio de Júri, e disputou ainda dezenas de festivais e premiações, como o César.

No DVD há um bônus especial, que recomendo assistir, um especial sobre as gravações, de 35 minutos, que na verdade são cenas editadas, não inseridas no doc. original. Acompanha também um livreto ilustrado de 30 páginas, com ensaio escrito pelo diretor brasileiro Eduardo Escorel e uma entrevista com Guzmán. Imperdível!

PS: “O botão de pérola” é o mais recente lançamento da coleção de DVDs do IMS, concebida em 2012 pelo falecido jornalista, curador e crítico de cinema José Carlos Avellar. No catálogo há filmes importantes restaurados com grande qualidade, como “La luna” (1979), de Bernardo Bertolucci, “Homem comum” (2015 – já resenhado no blog), de Carlos Nader, “Cerimônia de casamento” (1978), de Robert Altman, “A batalha de Argel” (1966), de Gillo Pontecorvo, “São Bernardo” (1972), de Leon Hirszman, e mais de 30 títulos. Confirma tudo isto no site oficial do IMS - https://ims.com.br, ou nas redes sociais da distribuidora - Facebook, Instagram e Twitter.

 

 

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Sobre o Colunista:

Felipe Brida

Felipe Brida

Jornalista e especialista em Artes Visuais e Intermeios pela Unicamp. Pesquisador na área de cinema desde 1997. Ministra palestras e minicursos de cinema em faculdades e universidades. Professor de Semiótica e História da Arte no Imes Catanduva (Instituto Municipal de Ensino Superior de Catanduva) e coordenador do curso técnico de Arte Dramática no Senac Catanduva. Redator especial dos sites de cinema E-pipoca e Cineminha (UOL). Apresenta o programa semanal Mais Cinema, na Nova TV Catanduva, e mantém as colunas Filme & Arte, na rede "Diário da Região", e Middia Cinema, na Middia Magazine. Escreve para o site Observatório da Imprensa e para o informativo eletrônico Colunas & Notas. Consultor do Brafft - Brazilian Film Festival of Toronto 2009 e do Expressions of Brazil (Canadá). Criador e mantenedor do blog Setor Cinema desde 2003. Como jornalista atuou na rádio Jovem Pan FM Catanduva e no jornal Notícia da Manhã. Ex-comentarista de cinema nas rádios Bandeirantes e Globo AM, foi um dos criadores dos sites Go!Cinema (1998-2000), CINEinCAT (2001-2002) e Webcena (2001-2003), e participa como júri em festivais de cinema de todo o país. Contato: felipebb85@hotmail.com

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