A Frieza Intelectual de Simone

O problema central, no meu olhar literario, de O Sangue dos Outros esta na uniao de todas as pecas no conjunto narrativo

01/02/2026 02:34 Por Eron Duarte Fagundes
A Frieza Intelectual de Simone

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Quando um leitor nos moldes deste que aqui escreve se enfada da aridez narrativa duma autora que o encantou em ensaios luminosos como O segundo sexo (1949) e A cerimônia do adeus (1981), é sempre problemático descartar um romance como O sangue dos outros (Le sang des autres; 1945), um dos primeiros exercícios ficcionais da francesa Simone de Beauvoir. Admiravelmente bem escrito, cheio de inteligência e cérebro, como só Simone o saberia compor, O sangue dos outros tem trechos individuais que cativam pela escrita e pelo pensamento, como seria natural em se tratando da grande escritora francesa. Mas como construção duma ficção, as entrelinhas de situação, a densidade das personagens, O sangue dos outros desmancha toda sua verdade emocional, certamente almejada pela autenticidade da autora, na pressa e na inabilidade para conciliar seu formalismo com o mundo interior; é um pouco como se O sangue dos outros fosse uma versão falhada de A idade da razão (1945), de Jean-Paul Sartre. Tanto o romance de Beauvoir quanto o de Sartre têm aspectos muito envelhecidos para os dias de hoje; mas onde Sartre sobrevive é na edificação duma turbulência emocional-intelectual, aí é que Simone parece não ter ido tão longe quanto seu talento lhe permitiria.

Mary del Priore, no belo prefácio da edição brasileira da Nova Fronteira, anota: “Em O sangue dos outros, quem fala é uma mulher profundamente apaixonada. Uma mulher em plena maturidade que encarna um sentimento intenso e poderoso. Simone o teria encontrado algum dia?” Talvez Mary tenha entendido o espírito feminino de Simone neste livro como eu, em sendo homem, não fui capaz de entender, a “ciranda” de personagens feita de Hélène, Madeleine, Paul e Denise, que no meu olhar divagam sem consistência na trama que se esgueira no meu cérebro, certamente foi pensada pela ficcionista de maneira forte e precisa. A política naturalmente surge: “Eu preciso ter paciência. Sabia que o comunismo tinha dificuldade em penetrar naquelas empresas, mas eu tinha jeito para falar; conseguia fazer-me ouvir nas reuniões sindicais.” Há situações entre as criaturas descritas com agudeza. “Estava irritado. Agradava-lhe, num sentido, conversar com ele; parecia ter uma reserva de recursos secretos. E era agradável pensar que ele estava escolhendo as palavras, de propósito, para ela, sentir seu olhar brilhante pousado sobre sua pessoa. Mas que ar seguro! Provocava um desejo imediato de contradizê-lo.”

O problema central, no meu olhar literário, de o sangue dos outros está na união de todas as peças no conjunto narrativo. A aridez mental dum cérebro privilegiado como o de Simone talvez se instale desmedidamente na dinâmica narrativa.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro ?Uma vida nos cinemas?, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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