FILMES NOS CINEMAS E NO STREAMING
Saiba que tem muita coisa boa pra assistir nas telinhas e nas telonas! Muito mais dos que os badalados...
O acidente do piano
Músico (apelidado de Mr. Oizo), produtor, roteirista e um dos diretores mais excêntricos do cinema contemporâneo, Quentin Dupieux retorna com toda autoralidade em “O acidente do piano” (2025), novo lançamento da Mubi que chegou ao streaming na semana passada. O filme, uma comédia dramática nonsense, conta com sua marca registrada: narrativa absurda que chega próximo do surrealismo, com personagens estranhos em um mundo em desalinho. Não há linearidade nem clímax ou situações previsíveis em seu cinema. A trama parte de um evento banal: um piano cai de uma janela e quase mata uma jovem influenciadora digital (Adèle Exarchopoulos, atriz de “Azul é a cor mais quente”). Ela tem escoriações pela cabeça e corpo. Passa o tempo todo com um gesso no braço. Irritadiça e temperamental, a mulher observa tudo ao redor, enquanto é envolvida em situações insólitas, muitas delas bizarras, como chantagens de desconhecidos. O acaso e o surreal se entrelaçam para questionar a lógica do cotidiano, num filme de arte que satiriza a cultura dos influencers e das subcelebridades em busca do sucesso a qualquer preço. Quem conhece os filmes de Dupieux, principalmente os últimos, “Yannick” (2023) e “O segundo ato” (2024), sabe que não são obras fáceis de compreender; elas desafiam as convenções do cinema, contando com diálogos complexos que duram cenas inteiras, e dividem opinião do público. Não é melhor do cineasta, mas tem ali boas provocações. Adèle Exarchopoulos está muito bem como a jovem protagonista no centro do caos. Um filme para inseridos no cinema autoral francês de Dupieux.
Toque familiar
Premiado em três categorias da seção Horizons do Festival de Veneza de 2024 (dentre eles melhor atriz e melhor diretora), o drama intimista de Sarah Friedland fala, de maneira sentimental, sobre a senilidade, explorando como a memória e o afeto se tornam territórios instáveis diante da deterioração física e mental. O roteiro acompanha um filho que entrega sua mãe para uma casa de repouso. A idosa, Ruth (uma interpretação solar de Kathleen Chalfant, na época com 79 anos), tem demência, diagnosticada há pouco tempo. De início, não entende o motivo de estar naquela moradia assistida, reluta em ficar lá e receber atenção de enfermeiros. Com os dias ela vai compreendendo e lidando com as dificuldades da memória e da locomoção, à medida que estabelece novas relações afetivas. O filme se destaca pelo trabalho sensível de Kathleen, cujas lentes ficam nela o tempo todo, captando toques, olhares e gestos. A fotografia é espetacular, que inspira leveza em cada detalhe. Os momentos de silêncio da personagem traduzem a impotência diante da inevitabilidade da condição humana – veja que mesmo contida, a atriz tem forte presença em um papel que diz tudo, mesmo sem usar palavras. Curtinho (em seus 89 minutos), o delicado filme tem um tom naturalista, que parece um documentário de tão verdadeiro. Disponível no streaming da Reserva Imovision.
A única saída
Visionário, com seu típico humor macabro e recorrendo ao clima de paranoia como fez em ‘Old boy’ (2003), o multipremiado cineasta sul-coreano Park Chan-wook entrega aqui sua versão do livro ‘The ax’, de Donald E. Westlake, que já havia inspirado a ótima comédia de suspense ‘O corte’ (2005), de Costa-Gavras. Park transporta a história de ambição e disputa a todo custo para seu país natal, no tempo atual. Os 25 anos de experiência como executivo no ramo de fabricação de papel não seguraram no emprego Man-soo (Lee Byung-hun); ele acaba de ser demitido da empresa com uma leva de outros funcionários. Seu mundo desaba, já que leva uma boa vida, numa casa luxuosa com seus dois filhos e a esposa dedicada. Com o passar das semanas, a crise financeira vem, mas ele não pretende vender a casa nem cortar gastos. Até que resolve jogar todas as fichas numa vaga em outra empresa do ramo papeleiro, mesmo que tenha de eliminar a concorrência (no sentido literal mesmo). Comédia perturbadora, violência e sangue, suspense e sequências absurdas tomam conta do novo trabalho de Park. É crítico e divertido, um longa inteligente, para se prestar atenção nos detalhes e nos diálogos, pois é um vai-e-vem de personagens e subtramas. O ator Lee Byung-hun segura o filme, e é um primor o domínio do diretor, considerado um dos nomes mais importantes do cinema contemporâneo, que revolucionou o cinema de ação contemporâneo com ‘Old boy’ e tantas obras notórias que são uma pancada. Exibido no Festival de Veneza e no Festival de Toronto, onde recebeu o prêmio do público de melhor filme internacional, o assisti na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, ainda com o título em inglês, ‘No other choice’. Estranhamente foi esquecido no Oscar deste ano, não recebendo nenhuma indicação – no Globo de Ouro teve indicações de melhor filme – comédia ou musical, filme de língua não-inglesa e ator para Lee Byung-hun. Estreou na semana passada em cinemas brasileiros de 21 cidades, com distribuição da Mares Filmes e a Mubi.
O ônibus perdido
Exibido no Festival de Toronto, o drama de ação inspirado em caso verídico acaba de receber indicação ao Oscar de melhor efeitos visuais. O filme adapta para as telas o livro ‘Paradise: One town's struggle to survive an american wildfire’, da jornalista Lizzie Johnson, então repórter em Los Angeles e hoje correspondente do Washington Post na Ucrânia. Livro e filme narram a trajetória de um homem que virou herói nacional durante o devastador caso ‘Camp Fire’, considerado o incêndio mais letal da história da Califórnia, ocorrido em 2018. Kevin McKay, um motorista escolar com apenas um mês de experiência na função, conduziu um ônibus perdido em meio às chamas, levando dentro 22 crianças e uma professora. Sem saber para onde ir, isolado em uma região sem comunicação, com fumaça para todo lado, McKay passou horas no volante driblando as chamas para salvar os passageiros. A narrativa tensa do filme reflete o caos e a coragem que marcaram aquele dia – a jornalista Lizzie acompanhou a tragédia trazendo para o livro a história desse homem. O caso Camp Fire envolveu um incêndio que teve início em 8 de novembro de 2018 em Butte County, causado por falhas em linhas de transmissão de uma empresa de eletricidade e gás natural. O fogo espalhou-se rapidamente, e a cidade de Paradise, onde o filme acontece, foi totalmente destruída. O saldo foi de 85 mortos, 52 mil moradores evacuados e 18 mil casas e comércio destruídos, e uma área queimada de mais de 62 mil hectares. Os prejuízos giraram em torno de US$ 16 bilhões. A direção do filme é competente, de um cineasta que admiro e sigo há muito tempo, o inglês Paul Greengrass, que costuma fazer obras angustiantes com seu peculiar olhar cinematográfico. Ele segue um estilo documental e utiliza câmeras de mão para criar realismo. Ex-jornalista, Greengrass dirigiu longas reais sobre desastres e ataques terroristas, como ‘Domingo sangrento’ (2002), sobre o massacre de manifestantes em uma passeata na Irlanda do Norte que explodiu em uma terrível guerra civil no país em 1972, ‘Voo United 93’ (2006), que recria os ataques de 11 de setembro, e ‘22 de julho’ (2018), sobre os atentados na Noruega de 2011 que mataram 77 pessoas, além de sucessos comerciais como os dois últimos filmes da trilogia de Jason Bourne. Para o elenco de ‘O ônibus perdido’, escalou Matthew McConaughey, que entrega um tour de force como o heroico motorista Kevin McKay, e America Ferrera, no papel da professora que está com as crianças no ônibus. Os dois estão sublimes, em papeis muito humanos, num filme movimentado, que não deixa de lembrar toda uma mobilização comunitária que ajudou a socorrer vítimas e a controlar o caótico episódio. Produção da Apple TV, está disponível no streaming.
Amizade tóxica
Lançado há pouco na plataforma Paramount Plus, a comédia independente do estreante cineasta Andrew DeYoung aposta no desconforto como mola propulsora da narrativa, subvertendo um tema tão batido no cinema, sobre a amizade improvável de dois desconhecidos. Aqui o inusitado ganha forma nos detalhes da história e na relação dos dois personagens centrais, mergulhando nos limites da amizade – e de como a intimidade pode escorregar para a destruição. Na história, dois homens acabam de se conhecer: eles são novos vizinhos, o solitário e impulsivo Craig (Tim Robinson) e um músico de bem com a vida, Austin (Paul Rudd). Craig se aproxima de Austin, no primeiro momento respeitosamente, até que o dois se veem presos em situações cada vez mais absurdas, onde pequenos atritos do cotidiano se transformam em paranoia e perseguição. O comediante Tim Robinson, especialista em humor que beira o constrangimento, entrega uma atuação que mistura fragilidade e excentricidade, num personagem carente e patético que pra mim já se tornou icônico (vou sempre lembrar dele aqui), um cara pegajoso que tenta forçar uma amizade com o vizinho. Paul Rudd, protagonista de “Homem-formiga” (2015), com seu timing preciso, traz dinamismo ao papel do vizinho que cai numa tremenda cilada ao se encontrar com o cara que mora ao seu lado – seu trabalho é muito bom, dá ritmo à comédia. Juntos, eles fazem do desconforto uma ferramenta narrativa, provocando risadas nervosas e reflexões sobre até onde a convivência pode ir. O filme se inscreve na tradição das comédias autorais que desafiam o público a rir do incômodo, em muitos momentos levando para situações-limite. Não é humor casual nem previsível: é estranho, por vezes cruel, com narrativa ousada. O filme recebeu indicação ao Critics Choice de melhor comédia neste ano e exibido no Festival de Toronto.
Kaguya: A princesa espacial
Primeira aposta do ano da Netflix em anime, “Kaguya: A princesa espacial” (2026) é um bom exemplar de animação japonesa que mistura de maneira eclética temas e gêneros, que vai do drama à ficção científica, passando pelo musical e pela comédia adolescente. Faz uma fusão do folclore ancestral japonês com o scifi moderno repleto de cores neon e rosa cintilante – Kaguya é a princesa que, segundo a lenda japonesa do século X, nasceu dentro de um bambu e foi cuidada por um cortador de lenha, tornando-se uma princesa cobiçada, que recebeu a alcunha de “Filha da Lua” (em 2013 saiu uma delicada animação que contava os detalhes desse folclore, filme indicado ao Oscar, que recomendo, “O conto da princesa Kaguya”). Aqui a princesa é uma garota serelepe, e longos cabelos loiros, que foge da Lua e vai parar na Terra. Ela aparece na casa de uma adolescente emburrada, Iroha, que vive sob estresse e cansaço da escola. Juntas seguem uma jornada de amizade e descobertas, até que Kaguya oferece a Iroha uma visita ao seu lar, no espaço sideral. Um filme teenager com história bacana, movimentada e com muita ação, que trata das incertezas da adolescência, da procura pela identidade e autonomia. É uma aventura colorida com músicas dançantes e ritmo frenético. O desenho de produção recorre a elementos da iconografia clássica japonesa alternado com um design intergaláctico que brilha os olhos. Essa releitura da lenda de Kaguya para o público jovem antenado nos streamings é um acerto da Netflix.
Sequestro: Elizabeth Smart
Novo documentário investigativo da Netflix que está no top 10 dos filmes mais vistos nessa semana. Volta-se a um caso policial estranho ocorrido em 2002 em Salt Lake City, no estado americano de Utah, que permanece como um dos mais misteriosos dos Estados Unidos. Aos 14 anos, Elizabeth Smart foi raptada de dentro de seu quarto enquanto dormia. Ameaçada com uma faca por um homem chamado Brian David Mitchell, foi levada por ele a um cativeiro nas montanhas, sem comunicação com a família. Elizabeth ficou aprisionada por nove meses, enquanto familiares e a polícia a procuravam desesperadamente. O sequestrador cometia abusos psicológicos com a garota, utilizando para tanto uma doutrina religiosa que servia para privá-la de tudo. Havia com Brian uma cúmplice, Wanda Barzee, que vez ou outra saía com a menina pelas ruas, colocando disfarces em Elizabeth, para que não fosse reconhecida. É um caso instigante e perverso, contado pela própria sobrevivente, Elizabeth, que expôs as dolorosas memórias como maneira de exorcizar o passado. Ela conta com detalhes para as câmeras toda a trajetória de medo e violência sofrida – hoje ela é uma ativista pelos direitos das crianças e adolescentes. No doc há um extenso material inédito com fotos e reportagens antigas que ajudam a reconstituir o crime. Uma das primeiras estreias do ano da Netflix, é um documentário angustiante, dirigido por Benedict Sanderson, já ganhador de dois Baftas TV.
Quo vadis, Aida?
Disponível gratuitamente na plataforma do Sesc Digital, este é um dos grandes filmes de 2020, que fiz questão de rever na última semana – e novamente fiquei impactado com a obra peculiar da cineasta bósnia Jasmila Zbanic. Não é fácil assisti-lo, é um filme duro, amargo, que comove, uma história ficcional dentro de um contexto real, o Massacre de Srebrenica, ocorrido na Bósnia em 1995. No drama de guerra, Aida Selmanagic (Jasna Djuricic) é uma tradutora da Organização das Nações Unidas (ONU) que presencia a cidade bósnia de Srebrenica, uma zona segura durante a Guerra da Bósnia, ser tomada pelo exército sérvio. Dos milhares de reféns estão seus dois filhos e o marido. Correndo de um abrigo a outro, ela tenta de tudo para colocar o nome dos três na lista de pessoas a serem protegidas dos guerrilheiros. Jasna Djuricic é um espetáculo de atriz, dando humanidade e eloquência ao papel da tradutora confinada na região de guerra na corrida incessante contra o tempo para salvar sua família (ela é casada de verdade com o ator Boris Isakovic, que faz o general Ratko Mladić, responsável pelo genocídio em Srebrenica). O filme faz uma denúncia contundente ao genocídio na Bósnia, recorrendo a um dos fatos mais marcantes da Guerra da Bósnia, e decisivo para o fim dela, o Massacre de Srebrenica, em 1995, quando oito mil bósnios muçulmanos foram executados pelo exército sérvio. As vítimas tinham idade entre 15 e 80 anos, mortos a mando do temido general Ratko Mladić (muitos anos depois ele foi preso e condenado pelo Tribunal Penal Internacional por crimes contra a humanidade). O que houve ali foi uma limpeza étnica, em uma região considerada “zona de segurança” pela ONU, Srebrenica – os corpos dos bósnios foram enterrados em valas comuns, demorando anos para serem descobertos. O título é uma expressão latina de origem bíblica, significando “Para onde vai, Aida?”, que se refere à pergunta do apóstolo Pedro a Cristo ressuscitado quando fugia da perseguição do imperador Nero aos cristãos. No filme há uma perseguição nitidamente cruel de um povo a outro, por questões territoriais e religiosas, e o roteiro preciso não deixa nada se dissipar. Pode ser visto como um thriller político, e seu forte teor emocional poderá causar mal-estar (o desfecho é um dos mais amargos que já vi no cinema). A diretora e roteirista bósnia Jasmila Zbanic conta que o filme serve como uma reparação histórica – ela escreveu o roteiro adaptado do livro “Under the UN Flag: The international community and the Srebrenica genocide”, de Hasan Nuhanovic, um sobrevivente do massacre. Indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro (representando a Bósnia e Herzegovina), concorreu ao Leão de Ouro em Veneza e foi exibido no Festival de Toronto. Fotografia e direção de arte ótimas, filmado na cidade de Mostar, a 300 quilômetros de Srebrenica.
Sobre o Colunista:
Felipe Brida
Jornalista, cr?tico de cinema e professor de cinema, ? mestre em Linguagens, M?dia e Arte pela PUC-Campinas. Especialista em Artes Visuais e Intermeios pela Unicamp e em Gest?o Cultural pelo Centro Universit?rio Senac SP, ? pesquisador de cinema desde 1997. Ministra palestras e minicursos de cinema em faculdades e universidades, e ? professor titular de Comunica??o e Artes no Imes Catanduva (Instituto Municipal de Ensino Superior de Catanduva), no Senac Catanduva e na Fatec Catanduva. Foi redator especial dos sites de cinema E-pipoca e Cineminha (UOL) e do boletim informativo "Colunas e Notas". Desde 2008 mant?m o blog "Cinema na Web". Apresenta quadros semanais de cinema em r?dio e TV do interior de S?o e tem colunas de cinema em jornais e revistas de Catanduva. Foi j?ri em mostras e festivais de cinema, como Bag?, An?polis, Bras?lia e Goi?nia, e consultor do Brafft - Brazilian Film Festival of Toronto 2009 e do Expressions of Brazil (Canada). Ex-comentarista de cinema nas r?dios Bandeirantes e Globo AM, foi um dos criadores dos sites Go!Cinema (1998-2000), CINEinCAT (2001-2002) e Webcena (2001-2003). Escreve resenhas especiais para livretos de distribuidoras de cinema como Vers?til Home V?deo e Obras-primas do Cinema. Contato: felipebb85@hotmail.com
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