O Diálogo de Menocchio com Riviere

A figura crua, quase sem nuances, não-interpretada, isolada de quase tudo, vagando pelos bosques como um alienado, de Pierre Rivière chocou Ginzburg

22/03/2018 14:38 Por Eron Duarte Fagundes
O Diálogo de Menocchio com Riviere

tamanho da fonte | Diminuir Aumentar

 

No prefácio da edição italiana de O queijo e os vermes (Il formaggio e i vermi; 1976), o autor, Carlo Ginzburg, parte de seu desacerto ideológico com um de seus mestres, o francês Michel Foucault, especialmente com um livro contemporâneo de O queijo, que é Eu, Pierre Rivière (1973) por aquela época filmado por outro francês, René Allio: “É no irracionalismo estetizante, portanto, que vai desembocar esta linha de pesquisa.” De que se queixa Ginzburg sobre o texto de Foucault? A figura crua, quase sem nuances, não-interpretada, isolada de quase tudo, vagando pelos bosques como um alienado, de Pierre Rivière chocou Ginzburg. Ao topar seu outro pequeno homem estranho e apocalíptico no interior da Itália, o moleiro Menocchio que, no coração do século XVI (Renascença, Reforma, Iluminismo) foi parar nos braços da Inquisição, arrostando-a, Ginzburg pretendeu fazer diferentemente. A matriz do italiano é o francês, evidentemente, mesmo que para um movimento em sentido contrário; Ginzburg fez seu parricídio, assim Rivière fez seu matricídio e quejandos, para falar com as metáforas dos psicanalistas. Isto é comum na literatura, nas ciências sociais, em quase tudo. Nathalie Sarraute, segundo o escritor argentino Ernesto Sabato tributária das narrativas de Marcel Proust, desancou o método do “tempo perdido”, que, de uma certa outra maneira, ela própria usava. Segundo o ensaísta brasileiro Jean-Claude Bernardet, um cineasta udigrúdi como Julio Bressane, para se expressar, deblaterava contra Papai Glauber Rocha. Ginzburg nasce um pouco de Foucault, e precisava também desta ruptura metodológica e ideológica.

Seu moleiro vai ser diferentemente tratado de Rivière. Como Foucault, Ginzburg apanhou um homem comum no turbilhão dum processo judicial da época. A peça judiciária, como em Foucault, é o nervo narrativo do livro. Os delírios das personagens talvez sejam mais exaltados na alma italiana que na francesa (ou talvez ocorra que Foucault seja mais seco mesmo). Mas Ginzburg exerce as interpretações paralelas: especialmente quer descobrir as leituras de Menocchio e as influências  que estas leituras possam ter exercido sobre suas visões e idéias. Na visão de Ginzburg o que vemos um pouco é um campônio delirante como aqueles sertanejos em filmes do brasileiro Glauber Rocha. Menocchio é um ser extraído do anonimato retirado pelo talento de Ginzburg. Mas sua trajetória não difere muito da de um Cristo contemporâneo ou daquela de Joana d’Arc que o cineasta francês Robert Bresson fixou num filme exemplarmente austero, O processo de Joana d’Arc (1961): o messianismo. Euclides da Cunha relatou a loucura de Antônio Conselheiro em seu livro Os sertões (1900). Quem saberia hoje quem foi este obscuro chefe de seita no sertão brasileiro se não fosse a pena de Euclides? Ginzburg e os asseclas têm antecessores, mesmo que tenham o dom de ter exacerbado o método micro-histórico, algo que o francês Honoré de Balzac realizava sob a forma de romances que eram na verdade grandes reportagens de seu tempo. A micro-história está na verdade de todos os tempos.

Mas, nestas investigações, sempre sobra uma ponta de frustração para o autor (e para o leitor). Conhecemos alguém? Mas os demais? É assim que se manifesta Ginzburg no parágrafo final de seu livro: “Sabemos muita coisa sobre Menocchio. De Marcato ou Marco —e de tantos outros como ele, que viveram e morreram sem deixar rastros— nada sabemos.” Paciência: a mente humana não pode abarcar tudo. No entanto, sem Rivière, seu antípoda relativo, Menocchio talvez não tivesse vindo à luz.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

Linha
tamanho da fonte | Diminuir Aumentar
Linha

Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

Linha
Todas as máterias

Efetue seu login

O DVDMagazine mantém você conectado aos seus amigos e atualizado sobre tudo o que acontece com eles. Compartilhe, comente e convide seus amigos!

E-mail
Senha
Esqueceu sua senha?

Não é cadastrado?

Bem vindo ao DVDMagazine. Ao se cadastrar você pode compartilhar suas preferências, comentar ou convidar seus amigos para te "assistir". Cadastre-se já!

Nome Completo
Sexo
Data de Nascimento
E-mail
Senha
Confirme sua Senha
Aceito os Termos de Cadastro