O Tempo e a Arte

A abadia de Northanger é uma viagem em palavras pelo universo de uma personagem impecavelmente criad

13/04/2018 16:14 Por Eron Duarte Fagundes
O Tempo e a Arte

tamanho da fonte | Diminuir Aumentar

 

A Abadia de Northanger (Northanger abbey; 1818), escrito pela inglesa Jane Austen, teve uma publicação póstuma, e suas irregularidades narrativas, numa romancista tão consciente de seu ofício de contar uma história em palavras, se deve muito aos acidentes de percurso do romance, desde sua confecção até o momento em que finalmente atingiu o prelo. O texto, embora tenha sido o último publicado de Austen, foi o primeiro que ela escreveu, lá por 1798, em pleno frescor e inocência de seu verbo. Revisto em 1803 pela escritora, foi oferecido a um editor, no entanto sua publicação não se deu, nem deram maiores explicações à autora sobre o engavetamento dos originais. Depois, um ano antes de sua morte a ficcionista britânica retomou o texto e empreendia de novo o processo para que seu trabalho chegasse ao público. Como se passara muito tempo desde que o escrevera, e desconfiava talvez da imaturidade de sua escrita, Jane chegou a anotar naquela que deveria ser a apresentação para o leitor de 1816: “Ao público, é rogado que se tenha em mente que 13 anos se passaram desde que o trabalho foi concluído, e que muitos anos mais se passaram depois que o trabalho começou, e que, durante este período, lugares, costumes, livros e opiniões passaram por consideráveis mudanças.” Evidencia-se que a escritora estava preocupada com a defasagem de sua história, coisa que hoje, como tudo muda mesmo a jato, acaba não importando muito aos artistas: até se ama uma certa cor de época. Isto lembra uma advertência semelhante feita por Machado de Assis para uma republicação de Helena, romance originalmente de 1876. “Não me culpeis pelo que lhe achardes romanesco. Dos que então fiz, este me era particularmente prezado. Agora mesmo, que há tanto me fui a outras e diferentes páginas, ouço um eco remoto ao reler estas, eco de mocidade e fé ingênua. É claro que, em nenhum caso, lhes tiraria a feição passada; cada obra pertence a seu tempo.” Em ambos os casos os artistas, com extrema consciência, se preocupam com a ação do tempo sobre sua arte.

A abadia de Northanger ainda tardaria em ser publicado. Parece que esperavam a morte de Jane, foi o que ocorreu. E, curiosamente, as inquietações de Austen (como as de Machado de Assis) perderam todo o sentido, passados os séculos. A abadia revela a mesma atualidade narrativa e os engenhos formais de toda a obra da ficcionista, mesmo que, diante da ausência de sua revisão estrutural final, certos problemas rítmicos se sucedam; mas é um problema ínfimo diante da grandeza da inspiração de caracteres e cenas. No caso de Helena a atualidade novelesca da obra condiz com certas características bem brasileiras.

A abadia de Northanger é uma viagem em palavras pelo universo de uma personagem impecavelmente criada, Catherine Norland. “Chegaram a Bath. Catherine estava num prazer ansioso. Seus olhos estavam aqui, acolá, em todos os lugares, enquanto chegavam perto de seus entornos belos e impactantes, passando, em seguida, por aquelas ruas que os conduziam ao hotel. Ela queria estar feliz e já se sentia assim.” Os amores de Catherine são os jovens John Thorpe e Henry Tillney; apesar das contrariedades do pai de Henry (este pai é general) acaba casando-se com este moço. Catherine lê romances góticos, moda na época. O que serve para que Jane ponha em marcha uma reflexão sobre sua arte: “e se trancavam para ler romances. Sim, romances, pois não adotarei este mau e insensato costume, tão comum em escritores de romances, de degradar pelas suas desprezíveis censuras os próprios trabalhos.” Jane se dirige algumas vezes ao leitor e se estabelece amiúde no centro de sua narrativa. Em outras vezes sua consciência narrativa é quase um discurso indireto livre de Catherine, mesmo quando o que vemos materializado é o discurso direto, na escrita inglesa recheado de aspas.

Parodiando os exageros atmosféricos das narrativas góticas, Austen nunca cede em sua visão crítica de narrar. Num trecho final do capítulo 21, por exemplo, ela aproveita para estudar os efeitos das leituras góticas sobre o espírito impressivo de Catherine. Para melhor desfrutar o ritmo peculiar do narrar-pesadelo de Austen, é bom evocar as palavras no original inglês. “The dimness of the light her candle emitted made her turn to it with alarm; but there was no danger of its sudden extinction; it had yet some hours to burn; and that the might not have any greater difficulty in distinguishing the writing than what its ancient date might occasion, she hastily snuffed it. Alas! It was snuffed and extinguished in one. A lamp could not have expired with more awful effect. Catherine, for a few moments, was motionless with horror.” O horror imobilizou Catherine; o fascínio encantatório hipnotizou (como imobilizou) o leitor. Para além do tempo, a arte de Jane Austen não envelheceu passados duzentos anos: menos ainda, Jane, poderia ter envelhecido passados aqueles modestos treze anos do início do século XIX. Uma das cortantes provas da perenidade das reflexões morais e sociais da romancista é o dueto ético em que se debate, na frase final, a narradora de Austen: “Professando-me mais ainda convencida que a injusta interferência do general, longe de ser realmente danosa à felicidade deles, sendo, talvez, o que a conduziu, ao aumentar o conhecimento um do outro, e acrescentar a força a sua paixão, deixo que seja determinado, a quem possa se interessar, se a tendência desta obra, em seu todo, é a de recomendar a tirania paterna ou a de compensar a desobediência filial.” Não é bem isto em que todas as gerações se revolvem, a influência dos pais e a fuga esta influência?

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

Linha
tamanho da fonte | Diminuir Aumentar
Linha

Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

Linha
Todas as máterias

Efetue seu login

O DVDMagazine mantém você conectado aos seus amigos e atualizado sobre tudo o que acontece com eles. Compartilhe, comente e convide seus amigos!

E-mail
Senha
Esqueceu sua senha?

Não é cadastrado?

Bem vindo ao DVDMagazine. Ao se cadastrar você pode compartilhar suas preferências, comentar ou convidar seus amigos para te "assistir". Cadastre-se já!

Nome Completo
Sexo
Data de Nascimento
E-mail
Senha
Confirme sua Senha
Aceito os Termos de Cadastro