Amor Em Desespero

A fronteira da alvorada (La frontière de l’aube; 2008) é um dos filmes mais densos dos trabalhos de Philippe Garrel e parte dum original literário do escritor francês oitocentista Théophille Gautier

25/04/2018 17:48 Por Eron Duarte Fagundes
Amor Em Desespero

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Embora faça filmes desde os tempos da nouvelle vague, movimento com o qual se identifica por um estilo de filmar em que se misturam o intelectualismo, as facilidades da improvisação e as dificuldades do rigor, o francês Philippe Garrel é desconhecido internacionalmente, muito longe do prestígio de seus principais pares franceses. Naturalmente Garrel (como outro francês, Robert Bresson) não teria como obter as graças do público, mas tem certamente elementos abundantes para atrair o espectador crítico, aquele que vai ao cinema para pensar e curtir sensações diferenciadas e profundas, não somente para curtir emoções efêmeras e logo descartáveis.

A fronteira da alvorada (La frontière de l’aube; 2008) é um de seus filmes mais densos trabalhos e parte dum original literário do escritor francês oitocentista Théophille Gautier (1811-1872). Os apreços arcaizantes do cinema de Garrel, que espanta e afasta a muitos, já estavam presentes no filme anterior do cineasta, Amantes constantes (2004), o primeiro exibido comercialmente nos cinemas brasileiros e filmado um pouco como se o poeta francês romântico Alfred de Musset (até citado em cena) tivesse ressuscitado na era do cinema. Os arcaísmos se espalham dolentemente ao longo de A fronteira da alvorada. Como em velhos filmes do francês François Truffaut (é como se Garrel radicalizasse os antiquários novecentistas de Truffaut), há íris que se fecham ou se abrem sobre as personagens. Não vemos telefones nem muito menos computadores em cena; os carros são poucos e geralmente estão estacionados no quadro cinematográfico; as personagens trocam cartas escritas no papel; a fotografia em preto-e-branco evoca uma metafísica antiga, aquela de alguns filmes dos franceses Louis Malle e Jean-Luc Godard do início dos anos 60. Mas todo este arcaísmo de filmar pode exercer um fascínio sobre o espectador, graças ao engenho de Garrel para a encenação.

No início do filme, quando o fotógrafo François (vivido pelo filho do realizador, Louis Garrel, talvez um ator-fetiche do cinema de seu pai) chega à casa da atriz Carole, o marido desta, em voz fora do quadro, murmura para a esposa: “Talvez ele esteja deslumbrado de poder filmar uma estrela.” Carole, dentro do quadro, ironiza: “Não sou uma estrela; sou uma atriz.” Este conceito, posto assim de cara, é um pouco da essência do cinema de Garrel: buscar atores e não astros, para revelar a intimidade das personagens.

A fronteira da alvorada se vai compondo com uma certa liberdade de blocos. O amor desesperado de Carole e François está desde o início fadado ao insucesso material; no fim ele a desleixa e ela se suicida, após crises de loucura e uma internação. Depois ele se envolve com Eve, que engravida dele; mas a culpa de François para com Carole se materializa no fantasma que aparece a ele dentro do espelho. A culpa amorosa de François lembra um pouco (embora menos mórbida, mas igualmente amarga) a de outro François, o François estudante de Um amor tão frágil (1976), obra-prima do suíço Claude Goretta. E a fantasmagoria final remete ao conto de fantasmas que inunda a parte final de O império da paixão (1978), do japonês Nagisa Oshima, outra história de amor em desespero.

O gesto final de François é tão inevitável quanto o desenvolvimento surdamente trágico de A fronteira da alvorada. A alva (“aube” do título original) é a primeira claridade da manhã que tem dificuldade em chegar ao comportamento desesperado aos seres humanos.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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