Desespero nas Praias de Santa Catarina

Daniel Galera faz literatura gaúcha. Embora tenha nascido em São Paulo, sua sintaxe e sua estrutura frasal são daqui

29/07/2017 23:45 Por Eron Duarte Fagundes
Desespero nas Praias de Santa Catarina

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Daniel Galera faz literatura gaúcha. Embora tenha nascido em São Paulo, sua sintaxe e sua estrutura frasal são daqui: o autor criou-se entre nós. Ao escrever, ele busca a naturalidade de nosso falar: usa o pronome tu, faz as concordâncias sem os “ss” ao conjugar esta segunda pessoa do singular: tudo em nome da espontaneidade dos diálogos e duma certa cor local. Barba ensopada de sangue (2012), um de seus romances, está ambientado quase todo nas praias de Santa Catarina (Garopaba, Rosa, Ferrugem, Pinheira), mas é bem como se suas conversações se dessem em Porto Alegre, pois os seres que circulam pelo estado vizinho são daqui mesmo, lá estão numa passagem que pode ser breve ou prolongada: Santa Catarina como uma estação de repouso do Rio Grande. Para  acalmar os nervos catastróficos.

Galera não me interessou muito em livros como Mãos de cavalo (2006) e Cordilheira (2008), este último se passando em Buenos Aires. Barba ensopada de sangue tem algo mais inteiriço, uma verdade ficcional mais autêntica, pois ultrapassa a simples questão do uso duma linguagem e chega ao cerne do que seria natural numa narrativa romanesca. O lado estrangeiro de Santa Catarina em Barba ensopada de sangue tem a função estrangeira que a capital argentina faz em Cordilheira; no entanto, os aspectos criativos deste enfoque são mais densos no “romance catarinense” do “gaúcho” Galera.

O protagonista de Barba ensopada de sangue vivenciou o suicídio do pai. “Entende o seguinte. É inevitável. Decidi faz semanas num momento da mais pura lucidez. Eu tô cansado. Tô de saco cheio.” Após o suicídio paterno, a personagem retira-se para os balneários de Santa Catarina: encontrar-se, recuperar-se. Uma das cenas de Garopaba descreve um show de músicos populares na praça central da cidade. “A praça em si desapareceu debaixo da multidão, do palco secundário, do palco principal com seus canhões de luz verde, vermelha e azul e das dezenas de barraquinhas de artesanato, pinhão, quentão, lanches, guloseimas e acepipes sem fim.” O narrador concentra seu olhar num cenário, a praça central da cidade, e busca captar instantâneos de histórias passadas neste cenário ao longo de algumas horas. Um só cenário, várias personagens em trânsito. “Deputados, aleijados, médicos, policiais, pescadores, atletas, casais com carrinhos de bebê, vagabundos, turistas.” E mais: “Também vieram os entediados, os que não conseguem dormir com o barulho e os que olham em volta com ares de censura ou incompreensão.” Quer dizer: “Todo mundo.”  O leitor já viu o embrião deste projeto de narrar em Les faux monnayeurs (1925), uma obra-prima do francês André Gide: “Ce que je voudrais, disait Lucien, c’est raconter l’histoire, non point d’un personnage, mais d’un endroit —tiens, par exemple, d’une allée de jardin, comme celle-ci, raconter ce qui s’y passe —depuis le matin jusqu’au soir.” (“O que que queria, dizia Lucien, é contar a história, não duma personagem, mas dum lugar —toma, por exemplo, uma alameda de jardim, como esta, contar o que se passa aqui — da manhã à noite.”) Algo assim: “quelque chose qui donnerait l’impression de la fin de tout, de la mort... mais sans parler de la mort, naturellement.” (“alguma coisa que daria a impressão do fim de tudo, da morte... mas sem falar da morte, naturalmente.”).

Galera vai acumulando as situações triviais de seus romances com um certo engenho de conjunto que faltava em suas obras anteriores; nada que faça de Barba ensopada de sangue uma narrativa definitiva de nosso mundinho de província. Mas algo em que a tortuosidade das coisas e das pessoas escorre como o sangue preso numa grande barba: a meleca incomoda mas não deixa de interessar. E traz junto alguns achados narrativos que, se não são novos, tocam indelevelmente alguma sensibilidade do leitor.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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