A Solidão no Bosque

Bosque da solidão (2017), do escritor gaúcho Nilson Luiz May, se esforça por capturar, em vocábulos de muita sensibilidade, o estado de coisas do homem

13/06/2018 15:24 Por Eron Duarte Fagundes
A Solidão no Bosque

Foto: O Sul

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O bosque da canção infantil é uma metáfora da mente humana. “Nesta rua, nesta rua tem um bosque, que se chama, que se chama solidão”. É assim que é o fundo de nossa mente: um interminável bosque vazio; há árvores, mas elas não se comunicam conosco, servem somente ao elemento de susto e medo. Bosque da solidão (2017), do escritor gaúcho Nilson Luiz May, se esforça por capturar, em vocábulos de muita sensibilidade, este estado de coisas do homem, que é para onde, cedo ou tarde, resvalamos; por sua estrutura dramática, condensada em suas densidades, está mais próximo duma novela que dum romance, se é que isto possa ter alguma importância.

May é um dos muitos casos de médicos que fazem literatura. No Rio Grande do Sul um dos mais famosos é Moacyr Scliar, médico sanitarista e ficcionista do primeiro plano das letras brasileiras. No Brasil o mais brilhante caso dos médicos que escrevem (não somente receitas de remédios) é José Geraldo Vieira, radiologista, que infundiu suas experiências no belíssimo A ladeira da memória (1950); infelizmente José Geraldo, pela natureza exigente de seu texto, não é lido hoje em dia nem mesmo estudado nas aulas de literatura. May, pelo que se lê em Bosque da solidão, honra esta herança: sabe valer-se do texto para expor a experiência de viver. Bosque da solidão deve trazer certamente as vivências e observações de May em suas atividades clínicas.

Bosque da solidão mergulha num caso de transtorno bipolar. E o expande. A teoria psiquiátrica que nasce das perturbações vindas de alterações no lobo frontal topam achados literários que aprofundam a situação, fugindo dos estereótipos cientificistas dos modelos naturalistas do século XIX ou ainda aqueles que atualmente querem enquadrar a complexidade dos comportamentos individuais em padrões ou estereótipos, verdadeiras camisas-de-força onde a arte sempre vai respirar mal. Bosque da solidão é asfixiante, sem dúvida; mas libera energias estéticas que permitem ao leitor extasiar-se em várias de suas páginas.

Existem três vozes que sutilmente se entrelaçam em Bosque da solidão. Há a mulher que sofre da instabilidade emocional: sua voz vem mais diretamente de seus cadernos, de seus diários. Há o filho desta mulher que, vinte anos mais tarde, se lembra dela em palavras que traduzem sua memória fugidia. E surge também uma figura nominada por Ele que não se sabe bem de quem se trata e vai num ziguezague refinado cruzar pelas consciências da mulher (o passado) e do filho (o presente). “Como minha mãe era de humor muito instável, depois de algum tempo, eu presenciava frequentes discussões na casa, mas não entendia os motivos...".

As referências cinematográficas e literárias são muitas e diversificadas ao longo da narrativa, vão dum ensaio sobre Kasper Hauser, o filme do alemão Werner Herzog, passando por Top gun, girando em torno da escritora inglesa Virginia Woolf, para estabelecer a atmosfera circular proposta pelo livro. Como se as personagens e o autor (ou o narrador onisciente) precisassem criar um mundo para exorcizar este bosque ameaçador que é o próprio signo da solidão, como sugere, ainda e sempre e reiterativamente, a canção da infância. “Por isso, não preciso ser totalmente feliz para amar a vida, tanto em seus momentos de ternura como de tristeza. Por enquanto, bastaria eliminar aqueles demônios que agitam os meus sonhos.” A literatura de May é, então, uma tentativa de perfurar a alma; perfurando-a, salva-a.

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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