Fascínio Repulsivo

Winifred Wagner apresenta uma estética pessoal, capaz de percorrer com uma estranha paixão os mecanismos interiores do nazismo

11/01/2019 22:08 Por Eron Duarte Fagundes
Fascínio Repulsivo

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Tratar o tema das ligações da música dum gênio como Richard Wagner com o espírito nazista, é cutucar a polêmica: entre o aparente caráter apolítico da arte dos sons e as implicações visionárias que podem ressoar entre o ouvido e o cérebro, um mundo sombrio e indefinível se esconde. É neste universo, situado meio de esguelha para o olho do espectador, que Winifred Wagner (1976), documentário alemão de Hans Jurgen Syberberg, vai buscar suas fontes de inspiração e sua tortuosa maneira de relacionar-se com sua interessada e dominada plateia.

Winifred Wagner apresenta uma estética pessoal, capaz de percorrer com uma estranha paixão os mecanismos interiores do nazismo. Syberberg tem para com o fenômeno nazista não a atitude costumeira de jogar pedras em bonecos ridiculamente perversos, mas um sentimento paternalista: é um filho mau que, apesar de sabê-lo mau, o pai o ama.

Será possível amar o nazismo, conhecendo seus horrores? Syberberg, em seu documentário, humaniza os conceitos nacional-socialistas na figura da nora do compositor Richard Wagner, cujo rosto enrugado, voz perfeitamente germânica e rápidas risadas guturais estão quase o tempo inteiro diante das aflitas e duras câmaras do cineasta. Propondo uma longa entrevista com Winifred Wagner (eram cinco horas de filmagem, na versão vista em cinemas alternativos há vários anos reduzidas para uma hora e quarenta minutos), o realizador alemão desce até aos fantasmas nazistas, expelindo com coragem todas as contradições da sociedade que os gerou; a admiração de Hitler pela expressividade musical de Wagner e sua amizade com os descendentes do grande compositor são elementos explorados com angústia e dúvida por Syberberg, que mostra também, na nora do famoso músico, o lado íntimo e não-caricatural do nazismo.

Graças à mestria cinematográfica de Syberberg, o espectador sente uma forte atração por este jogo de ambiguidades que se vê na tela, com a força dum vulcão indesejado mas inevitável. Num dos muitos letreiros do filme, há um que fala da reação de Gustav Mahler ao sair dum espetáculo de Bayreuth, isto é, após tomar contato com uma peça musical de Richard: é algo inesquecível, grandioso mas ao mesmo tempo doloroso, reflexiona Mahler. O comportamento do espectador diante deste documentário de Syberberg não poderá ser diferente.

Vale a pena esboçar a técnica de composição dramática do cineasta, para atingir estes efeitos surpreendentes. Syberberg abre seu filme sobre as ruínas da mansão dos Wagner, evocando toda uma história de decadência e de transformação dos tempos, da época de Luís da Baviera (o mecenas do compositor), passando pelo evento nazista e chegando até Winifred e sua velhice atual. É aí que Syberberg suspende a poesia macabra daquela voz-off que dá o texto sobre imagens de ruínas e coloca em cena a figura cuja entrada ele preparou com tanto encanto: Winifred Wagner. A entrevista, a princípio, é conduzida de forma livre; a face de Winifred, evocando o passado, é mostrada de frente; temos uma espécie de cara-a-cara que o estranho texto inicial parecia desmentir. À medida que se força a barra, e Winifred, em seu isolamento, é obrigada a confrontar o amigo Hitler com o criminoso Hitler (e se recusa a isto), lá pelas tantas Syberberg passa a fixar sua personagem de perfil, entre sombras, com uma mobília ao fundo; é o instante de amargura, de transe, que substitui a confiança e a vitalidade do início. Para se desfazer, finalmente, da entrevistada, Syberberg enquadra-a em angulações distanciadas, praticando seus gestos do dia-a-dia, enquanto sua voz-off dá seus últimos depoimentos. E o texto final, no mesmo tom soturno, remete para o texto inicial, fechando este círculo aprisionado e aprisionador.

O que se pode dizer é que, dentro duma estética que promove a lenta graduação dum mistério enchendo-o ao cabo de mais mistério, Hans Jurgen Syberberg realiza um dos mais impressionantes documentários do cinema nos anos 70. E uma das mais inusitadas e também complexas visões do nazismo que se conhece.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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