A Natureza no Cinema em Malick

Libertario, revolucionario, Cinzas no Paraiso traz uma inquietude proxima dos abismos

31/08/2025 02:46 Por Eron Duarte Fagundes
A Natureza no Cinema em Malick

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Na história que conta em Cinzas no paraíso (Days of heaven; 1978) o realizador norte-americano Terrence Malick põe em cena alguns aspectos sociais, como se fosse fazer a crônica de formação duma sociedade pré-industrial. No começo do século XX, Bill, um operário de Chicago, assassina seu chefe, por um ato de rebeldia, e foge, pegando a estrada, acompanhado de Abby, sua namorada; a eles se junta a adolescente Linda, irmã de  Bill. O desenvolvimento da história —a ambição de Bill e Abby faz com que, topando com um rico fazendeiro que se interessa por Abby, mudem o rumo da conversa, se deixem passar por irmãos levando Abby a casar-se com o Fazendeiro; a grande tragédia, ao estilo helênico, se desenha nos apontamentos sociais que Malick vai espalhando. Mas o que impressiona mesmo em Cinzas no paraíso é a força audiovisual de sua narrativa, uma autêntica hipnose cinematográfica; auxiliado pelo esplendor da fotografia de Nestor Almendros (este artista belo e versátil como se sabe pelo trabalho para O joelho de Claire, 1970, do francês Éric Rohmer, um trabalho também minuciosamente estético mas diferente deste aqui para Malick) e pelas densidades da música de Ennio Morricone, Malick atinge uma forma de filmar em Cinzas no paraíso que talvez seja mesmo o ápice de seu estilo de encenação, apesar das muitas obras-primas que ele fez.

A natureza é um dado de linguagem inalienável do processo estético de Cinzas no paraíso. Ao longo de sua filmografia, que entre os anos 70 e 90 teve escassos trabalhos, Malick sempre insistiria nestas relações entre os cenários naturais e os dramas que encenava. Assim como a utilização do texto-over é algo bastante particular nos filmes de Malick, com uma depuração e complexidade cada vez mais extremadas. Em Cinzas no paraíso é a personagem de Linda que faz esta voz narrativa por sobre as imagens. Linda, em cena, dividindo o espaço cinematográfico com Bill, Abby e o Fazendeiro, é o olho-observador do universo de Malick. Richard Gere ainda não era uma estrela do cinema americano, embora já desse seus trejeitos naquela época de juventude, mas Malick sabe encaixá-lo numa proposta de cinema crítico e superior. Brooke Adams, fora este filme, não fez uma carreira, como fez Gere. Malick os harmoniza aqui com perfeição e autenticidade. E a presença cênica de Linda Manz, aliada às marcações precisas de sua voz, é um dos achados do cinema que Malick converte em puro mistério de filmar.

Libertário, revolucionário, Cinzas no paraíso traz uma inquietude próxima dos abismos, que Malick conduz com uma frieza de cronista, ainda que seus arroubos audiovisuais se esforcem por outros caminhos, entre impressionistas e barrocos. No fim do filme, mortos o Fazendeiro antes (por Bill) e depois Bill (pelo cerco da polícia), Abby abandona a jovem Linda num internato, mas a pequena foge escalando uma janela e encontra uma colega dos tempos de colheita com quem é vista caminhando nos trilhos do trem na imagem que fecha o filme, talvez em busca do paraíso, improvável, pois eram dias de guerra no mundo. O que se viu antes, com o ataque das pragas na lavoura, o fogo na plantação, tudo sucedendo ao conflito amoroso desmesurado entre Bill, Abby e o Fazendeiro, não eram bem estes “dias de paraíso” anunciados pelo título original do filme de Malick. Sem ser propriamente religioso, é possível ver algo de bíblico (como conceito) no conto explanado pelo cineasta em Cinzas no paraíso: crime, castigo e redenção final, esta pela estrada-de-ferro.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

 

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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