A Marca da Maldade - Um dos Últimos Clássicos Noir do Cinema

Um magnífico estudo acurado sobre a natureza perversa do ser humano

12/11/2014 11:25 Por Paulo Telles
A Marca da Maldade - Um dos Últimos Clássicos Noir do Cinema

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Um magnífico estudo acurado sobre a natureza perversa do ser humano. Orson Welles (1915-1985) realiza de forma inteligente uma palestra em seus 106 minutos de projeção (versão remontada) na obra A Marca da Maldade (Touch of Evil) de 1958. Aliás, atuando também como ator no papel de Hank Quinlan, um policial pungente e corrupto que ele interpreta de forma soberba, traduzindo um resumo de tudo que Welles tem a pretensão de sugerir ao espectador, mais especificamente em relação às incoerências, hipocrisias, e contradições, que envolvem a natureza humana. Também assinala o retorno deste big cineasta a Hollywood após nove anos de ausência. A fita teve cenas acrescentadas e montagem adulterada pela Universal à revelia do diretor.

Em 1999, foi realizada uma remontagem segundo as intenções do cineasta (que falecera em 1985) e deixadas para herdeira do diretor, Rebecca Welles*. Charlton Heston e Janet Leigh  estiveram presentes na cerimônia de lançamento que foi exibida especialmente por ocasião dos 40 anos da estreia da obra. Foi o próprio astro de Ben-Hur e Os Dez Mandamentos, quem sugeriu a Universal Pictures para que Welles assumisse a direção (anteriormente, Welles só atuaria como ator). Em verdade, o estúdio teve medo, mas Welles cumpriu o tratado e realizou a obra no tempo certo dentro do orçamento estabelecido. Mas mesmo assim, a Universal mexeu no filme. Amigos de longa data de Welles participam da fita, alguns até não creditados. Participam Zsa Zsa Gabor como a dona do bordel, Keenan Wynn, Jospeph Cotten, e despontando o jovem Dennis Weaver (1924-2006) improvisadamente por instigação de Charlton Heston, no papel do atrapalhado e bitolado empregado do hotel.

Welles tinha apenas 41 anos quando desempenhou o papel do obeso policial Hank Quillan, e como se não bastasse, ainda usou uma maquiagem bem pesada. Numa das ultimas cenas, justamente em que seu personagem morre, Welles sofre um real acidente ao cair do rio e fraturar o braço. Janet Leigh também não teve tanta sorte, pois filmou Touch of Evil quando havia quebrado o braço esquerdo durante um programa de TV e passou grande parte da filmagem escondendo o problema.

Numa pequena cidade de fronteira mexicana, um vulto coloca uma bomba-relógio na mala de um conversível, fugindo em seguida. Um insuspeito e rico americano, Rudi Linnekar, e sua namorada, uma dançarina de strip-tease, entram no conversível e se dirigem à fronteira com os EUA.

Quando o conversível para no Posto de Fiscalização, chega também, a pé, Ramon Miguel 'Mike' Vargas (Charlton Heston), um honrado e incorruptível investigador mexicano do Departamento de Narcóticos, em companhia de sua bela mulher americana, Susan Vargas (Janet Leigh, 1927-2004), casados há poucos dias, que estão naquele momento curtindo a lua de mel.

Pouco depois de entrar em território americano, o conversível explode, matando seus ocupantes. Mike, Susan e outras testemunhas correm, juntamente com a polícia, até o local da explosão. O promotor Adair (Ray Collins,1899-1965) também chega naquele momento, criticando o fato de Hank Quinlan (Welles, sempre magistral!), um gordo policial malquisto da corporação e considerado um corrupto capitão de polícia texana, não ter aparecido. Vargas pede à esposa que vá para o hotel, e oferece seu apoio não oficial ao caso, como testemunha. Assim, planeja ir à cidade do México como testemunha de acusação no julgamento de Grandi, um traficante de drogas que ajudara a colocar na prisão.

Enquanto isso, Susan é abordada por Pancho (Valentim de Vargas), um criminoso que a leva à presença do irmão de Grandi, “Tio” Joe Grandi (Akim Tamiroff, 1899–1972). Este a ameaça, com uma arma e um charuto aceso que quase a queima na boca, dizendo-lhe que o marido tem que ficar de fora do julgamento do irmão. Ela o lembra que, a essa altura, seu marido já deve estar à sua procura.

De volta ao hotel, Vargas encontra Susan, que acabara de chegar de seu encontro com “Tio” Grandi. Por questões de segurança, sugere que ela siga logo para a Cidade do México, onde ficará a aguardar pelo marido. Ao sair do hotel, Vargas é atacado por um jovem da gangue de “Tio” Grandi, que tenta lhe jogar ácido no rosto, mas Vargas se defende e sai ileso.

Quinlan e seu parceiro “sócio”, o Sargento Pete Menzies (Joseph Calleia, 1897–1975), juntamente com outros policiais, sob o pretexto de investigarem a explosão, vão até o Clube de Strip-Tease, onde conversam com a proprietária. Ao sair de lá, Quinlan vai ao bordel de Tanya (Marlene Dietrich, 1901-1992), sua antiga amante, onde lhe pergunta se ouviu alguma coisa a respeito do atentado à bomba, prometendo-lhe voltar mais tarde.

Na manhã seguinte, “Tio” Grandi planeja envolver Susan num crime de sexo e drogas, a fim de forçar Vargas a desistir de testemunhar contra seu irmão preso. Quinlan sugere a investigador mexicano que Susan estará mais segura no Motel Mirador, no México. Logo, Vargas aceita a sugestão sem saber que o Motel é de propriedade de Grandi.

Juntamente com Vargas, Quinlan procura Manolo Sanchez (Victor Millan, 1920-2009), um antigo empregado de Linnekar e amante da filha deste, Marcia (Joanna Moore, 1934-1997). Quinlan diz que Sanchez tinha motivos para acabar com a vida de Linnekar. Assim, Vargas sai por um instante, a fim de telefonar para Susan e, ao voltar, percebe que Quinlan forjou evidências que podem incriminar Sanchez.

Ao verificar que Vargas percebeu que as evidências foram forjadas, Quinlan procura “Tio” Grandi, já que ambos querem vê-lo longe do caso. Enviados por “Tio”Grandi e sob a orientação de Quinlan, Pancho e seu grupo chegam ao Motel para aterrorizar Susan. Depois de cortarem sua linha telefônica, uma das líderes do grupo (Mercedes McCambridge, numa participação não creditada, no papel de lésbica) ameaça abrir a porta com uma chave-mestra para uma noite de orgias com drogas.

Vargas começa, por conta própria, a investigar Hank Quinlan, determinado a mostrar que ele forjou evidências contra Sanchez. Menzies procura Quinlan para lhe falar das intenções do investigador mexicano. Com isso, Quinlan corre até o hotel onde Vargas conversa com o promotor, e ao chegar lá, zomba do investigador mexicano, ao mesmo tempo em que o promotor (possivelmente com medo e ponta de puxa-saquismo) diz ter certeza de que Quinlan é um policial correto.

No Motel, Susan é drogada. Como parte do plano de “Tio” Grandi, ela é raptada e levada inconsciente para um apartamento do Hotel Ritz, de sua propriedade, onde é deixada semi-nua numa cama, ao lado dos restos de entorpecentes. Quinlan força “Tio” Grandi a telefonar para a polícia e dizer a Menzies que as autoridades podem encontrar Susan, a esposa do honesto policial Ramon Vargas, drogada no Hotel Ritz, com intenção de desmoralizar tanto a conduta do investigador mexicano quanto a integridade moral de sua esposa. Em seguida, o corrupto Quinlan mata o asqueroso “Tio” Grandi.

Al Schwartz (Mort Mills, 1919-2003) avisa Vargas que sua esposa encontra-se presa, acusada de envolvimento com drogas e de ter cometido um assassinato. Por outro lado, convencido de que Hank Quinlan tem a ver com o ocorrido, Menzies alia-se a Vargas para desmascará-lo. O plano de Vargas consiste em Menzies usar um microfone escondido para gravar uma conversa com Quinlan que possa definitivamente incriminá-lo. Menzies consegue gravar a conversa, como planejado, mas é descoberto por Quinlan, que até aquele momento havia sido seu melhor amigo, e é morto por ele.

Vargas, que vinha seguindo os dois, aparece de repente para capturar o gordo Quinlan, mas este aponta a arma em direção ao investigador mexicano, mas, embora mortalmente ferido, o ex "sócio" Menzies consegue matar o capitão de polícia corrupto. Schwartz chega com Susan num carro e corre para o local onde se acham Menzies e Quinlan, já jazigos ao chão. Vargas abraça sua mulher dizendo-lhe que, afinal, está tudo acabado. No último momento, chega ao local também Tanya, que já pressentindo o final de seu ex-amante, de certa forma vem a lamentar seu fim ao promotor Schwartz.

Num primeiro plano, o filme parece seguir algumas das mais básicas características dos filmes policiais noir da extinta RKO: a fotografia com ampla definição de claro e escuro; um crime como ponto de partida o desenrolar da trama e as investigações que se desenvolvem acerca delas; ambientes decadentes e imundos; imoralidade e corrupção pungente; e cenas preferencialmente noturnas, permeiam toda a composição estética desta notável obra cinematográfica.

Mas em contrapartida com outros clássicos noir, esta magnífica obra de Welles tem como protagonista um policial mexicano honesto que coloca a lei acima de tudo e interpretado muito bem por Charlton Heston, contudo um herói clássico que inexiste em outras produções ao estilo, onde os “mocinhos” interpretados por Robert Mitchum, Humphrey Bogart, ou Robert Ryan, eram heróis atormentados que ainda assim desafiavam o sistema, sofrendo com isso muitas consequências. Outro detalhe muito interessante, de praxe nas fitas policiais noir são as femme fatale, a mulher que acaba seduzindo e atrapalhando a vida do personagem principal, onde aqui em A Marca da Maldade não existe. Mesmo assim, é considerado o último dos clássicos noir de Hollywood por se tratar de um filme policial e retratar o lado sombrio e pungente da lei.

A Trilha Sonora de Henry Mancini (1924-1994) que veio até a se tornar um referencial ao estilo dos velhos filmes policiais, tem papel fundamental, uma vez que ela molda algumas cenas, participando delas ativamente, atuando como uma importante ferramenta de continuidade que claramente situa o espectador na trama. Um filme sem dúvida com diálogo inovador para o público do final da década de 1950, que eram consideradas até então um tabu para o cinema norte-americano, mesmo com o Código Hayes (o código de censura moral-americana criado na primeira metade dos anos de 1930 para a exibição de filmes) estando já naquele tempo perdendo sua eficácia. Vemos palavras como “baseado”, “entorpecentes”, “picada”, entre outras que fazem parte do vocabulário dos viciados.

A versão proposta por Welles talvez seja um pouco mais direta e clara (onde não contava a trilha de Henry Mancini, introduzida pelo estúdio, que não sai nada mal), além da fotografia claro-escuro quase expressionista, os cortes abruptos, e o uso de câmera na mão. Com todos estes recursos dentro do baixo orçamento previsto para produção, Welles oferece ao mundo uma obra B de primeira (B = baixo orçamento) com requintes de produção Classe A, que se tornou uma das películas mais admiradas e assistidas em todos os tempos ao longo de mais de 50 anos de seu lançamento, com um tema bem pertinente ainda nos nossos dias.

*1-No canal Telecine Cult foi exibido o Making Of do filme, ao contrário do lançamento em DVD, que foi proibido pela filha de Welles, Rebecca filha do diretor com Rita Hayworth, e herdeira do cineasta.

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Sobre o Colunista:

Paulo Telles

Paulo Telles

Paulo Telles é natural do Rio de Janeiro, onde nasceu em 1970. Mora na mesma cidade na região boêmia da Lapa. Curte cinema desde a adolescência, e através das matinês da TV, aprendeu a amar a Sétima Arte e os astros e estrelas do passado. Ele é o editor do blog FILMES ANTIGOS CLUB, acessível em: http://www.articlesfilmesantigosclub.blogspot.com.br/, espaço dedicado a matérias relacionadas ao cinema antigo, com biografias e resenhas de alguns filmes. Também é locutor da Escola de Rádio Web. Email: filmesantigosclub@hotmail.com ou paulotellescineradio@r7.com

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