As Nuvens Politicas no Cinema de Rosi
Dotado de rigor e humanismo classicos de filmar, o cinema do italiano Francesco Rosi teve seus momentos de excelencia estetica que se esfumavaram bastante na fase final de sua filmografia
Dotado de rigor e humanismo clássicos de filmar, o cinema do italiano Francesco Rosi teve seus momentos de excelência estética que se esfumaçaram bastante na fase final de sua filmografia. Cadáveres ilustres (Cadaveri eccellenti; 1976) é ainda um dos momentos densos e fortes de realização de Rosi, onde a questão política e social se punha na linha de frente de sua linguagem, permitindo a seu universo cinematográfico uma complexidade analítica que o põe facilmente no primeiro time dos diretores peninsulares (não é por acaso que um italiano de hoje, o cineasta Paolo Sorrentino, lhe dedica A juventude, 2015, nos créditos finais).
Cadáveres ilustres parte dum romance de 1971 do italiano Leonardo Sciascia, Il contesto, mas Rosi e seu roteirista, o experimentado Tonino Guerra, tomam algumas liberdades para com o texto de Sciascia, mantendo todavia suas essências de observação, suas características duma reportagem estética. Se no romancista temos um país imaginário em que um fiscal é assassinado por ser um abelhudo e um inspetor sai à caça da verdade dos fatos, no filme de Rosi o que são encenados são assassinatos em série de juízes em aspectos privados e outros públicos se misturam e confundem e um inspetor se envolve na investigação até o bruto desenlace final. Rosi discute a composição de verdade pelas orientações políticas de maneira talvez mais direta e concreta que aquela que há no livro; a frase final do filme, alguém diz após a estranha morte do inspetor e do dirigente do Partido Comunista no mesmo ato, “a verdade nem sempre é revolucionária” é uma autoironia de Rosi, um homem de esquerda que desagradou à esquerda na época pela ambiguidade de suas colocações. Esta frase derradeira não está propriamente no livro de Sciascia, que usa de circunlóquios de diálogos para dizer algo parecido.
O elenco de que se vale Rosi é sempre curioso: Lino Ventura deslancha no papel do inspetor; o espanhol Fernando Rey desliza pela trama; o ator sueco bergmaniano Max Von Sydow aparece em toda a sua fantasmagoria sarcástica fazendo sua personagem discursar, em sofisma após sofisma, sobre uma inexistência teórica do erro judiciário.
A sequência inicial, com a personagem de Charles Vanel (o primeiro juiz morto) passeando, em elaborados travellings entrecruzados, por uma estranha galeria onde deparamos esqueletos em sarcófagos (os tais cadáveres de excelência).
Rosi faz seu retrato cortante da Itália politicamente perturbada da década de 70 do século passado. Para ver o quanto o cinema político italiano atual se distancia do rigor e do humanismo clássicos de realizadores como Rosi, basta pensar num filme como Irmãos à italiana (2020), de Claudio Noce, também ambientado no terrorismo peninsular dos anos 70. Algo se perdeu no meio do caminho: ou dos anos.
(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)
Sobre o Colunista:
Eron Duarte Fagundes
Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro Uma vida nos cinemas, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br
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