A Paixao Estetica do Cinema
Feito de beleza e tensao e da tensao da beleza, Hamnet traduz em imagens uma paixao estetica que somente uma realizadora de extremo talento poderia atingir
Chloé Zhao, cujo nome de nascimento é Zhao Ting, é uma cineasta chinesa; nasceu em Pequim, morou em Londres na adolescência e veio ter em Los Angeles; hoje, seus filmes americanos fazem uma mescla de seu fascínio pela cultura americana e ocidental com suas origens orientais e seu deambular pelo mundo ao longo da vida. Hamnet, a vida antes de Hamlet (Hamnet; 2025), um projeto de produtores americanos de filmar o romance publicado em 2020 por Maggie O’Farrell (uma ficção em torno de fatos da vida do dramaturgo inglês William Shakespeare), caiu-lhe no colo; parece que o senso de percepção de Steven Spielberg, que produz o filme junto do britânico Sam Mendes, teve a intuição de que a realizadora que estudara relações familiares em longes recantos americanos em Song my brothers taught me (2015) e The rider (2017) seria capaz de dar a atmosfera mística exigida pela história das relações de Shakespeare com a esposa, com o filho morto aos 11 anos, com as filhas, com o pai, com o cunhado. O resultado final chega a assombrar mesmo para quem admirava o trabalho anterior da diretora; o rigor plástico dos planos, uma marca autoral de Zhao inclusive em seu filme mais conhecido, Nomadland (2020) e em Eternos (2021) faz seus contornos industriais sem descaracterizar inteiramente seu estilo de filmar.
A partir da fotografia de Lukasz Zal e com as marcações musicais sombrias de Max Richter, contando com os hábeis gerenciamentos de recursos de produção por experimentados homens de cinema como Spielberg e Mendes, Zhao aprimora a densidade plástica de sua encenação em Hamnet. O centro mesmo da trama é a esposa de Shakespeare (Jessie Buckley, extraordinária como Agnes, aqui a companheira do escritor); Shakespeare no filme é o artista ausente, sempre em Londres enquanto sua família vive no meio rural, numa de suas ausências seu filho de onze anos, Hamnet, morre vitimado pela peste. A culpa assola o grande poeta. Desolado, ele abandona suas divertidas comédias anteriores e compõe uma tragédia. O nome: Hamlet, que é uma variante do nome do filho. A parte final do filme de Zhao é uma longa, exasperante e profunda encenação do texto de Shakespeare, numa espécie de teatro de época: um êxtase para o observador.
Hamnet, partindo do livro de O’Farrell, parte da tese de que a vida do artista (Shakespeare em particular) determina muito de sua obra. Num outro filme shakespeareano, Shakespeare apaixonado (1998), dirigido pelo inglês John Madden, havia algo próximo: apaixonado por uma mulher, Shakespeare escreveu Romeu e Julieta. Em Hamnet o que ocorre: solapado pela morte do filho, Shakespeare chega ao sombrio metafísico de Hamlet. Mas se Zhao é densa e criativa, o filme de Madden era engessado, pouco inspirado. A morte do filho de Shakespeare como determinante da obra seguinte de Shakespeare lembra o que aconteceu com o cineasta italiano Roberto Rossellini, que perdeu um filho de nove anos de idade e aí desceu nas meditações místicas e infernais de Europa 51 (1952), como lembrou na época o crítico brasileiro Paulo Emilio Sales Gomes.
Feito de beleza e tensão e da tensão da beleza, Hamnet traduz em imagens uma paixão estética que somente uma realizadora de extremo talento poderia atingir.
P.S.: Talvez a principal inspiração estética do filme de Zhao seja O império da paixão (1978), clássico japonês de Nagisa Oshima, desde a extremidade dos planos até a proposição plástica destes planos, inclusive na utilização de certos contos de fantasmas com um morto aparecendo para os vivos (tanto na história do filme quanto na peça dentro do filme), detalhes místicos onde Zhao vai afastar-se de Oshima ao mesclar fantasmas orientais com formas ocidentais.
(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)
Sobre o Colunista:
Eron Duarte Fagundes
Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro Uma vida nos cinemas, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br
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