A Literatura Hormonal na Era do Cinema
Em seu conto Verdes Anos (incluido no volume Trevas no paraiso, 2004) Luiz Fernando Emediato acha o feliz tom narrativo em que a linguagem parece ir para dentro das personagens
Em seu conto Verdes anos (incluído no volume Trevas no paraíso, 2004) Luiz Fernando Emediato acha o feliz tom narrativo em que a linguagem parece ir para dentro das personagens. Quem viu o filme de Carlos Gerbase e Giba Assis Brasil extraído deste conto lembra uma narrativa nostálgica em sua evocação duma época em Porto Alegre, há no filme (quando o revemos) um certo ar de coisa antiga (nossa, do sul, com uma característica que pode assemelhar-se mas foge um pouco àquela juventude descrita por Emediato em seu texto). O conto diverge desta aparência datada porque o discurso narrativo tem outro tipo de força; lido hoje, Verdes anos, o de Emediato, traz uma agressão sintática que o mantém quase intacto.
Observa-se que a cena de abertura do filme (os dois amigos bêbados vindo pela rua escura) parece ter partido de certas coisas do conto de Emediato. O escritor capta a juventude de um tempo histórico (brasileiro) com uma sensibilidade literária que, por uma felicidade qualquer ou um certo engenho de dispor situações e personagens e modos de dizer, conduz o texto a uma atualidade talvez mais viva que aquela do filme de Gerbase e Assis Brasil, que praticamente usaram o conto como um pretexto (esqueleto) para dar sequência ao cinema juvenil-para-o-adulto que vinham fazendo em Super-8.
Verdes anos, o conto, é literatura hormonal no tempo cinematográfico. Pode-se pensar em Salim Miguel ou Caio Fernando Abreu. “você me mata de vergonha, você é a vergonha da família”. Jovens podem ter sido, em algum momento da década de 70, a vergonha da família.
Em O despertar da primavera Emediato faz a literatura voltar-se para o cinema. Depois de ver o filme Verdes anos o autor compôs o conto que reaproveita as personagens segundo o filme. O despertar da primavera, se o leitor viu o filme (o que pode ser um fato incomum fora do Rio Grande do Sul), pode ser lido como um reaproveitamento do próprio conto Verdes anos. “Um dia, Teco, eu vou para a cidade grande; vou escrever um livro e vou entender o mundo.” Teco e Nando continuam dialogando conosco, entre o primeiro conto e o filme, neste segundo conto em que reaparecem.
Em todos estes relatos (o conto Verdes anos, o filme Verdes anos, o conto O despertar da primavera) sobressai a força da memória da juventude. “Aquele tempo eu jamais vou esquecer”, diz alguém no conto Verdes anos. Verdes anos, despertar, primavera: termos de juventude, a descoberta do mundo.
(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)
Sobre o Colunista:
Eron Duarte Fagundes
Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro ?Uma vida nos cinemas?, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br
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