O Pos-Guerra de Corpo Presente

O Ano Zero da Alemanha se trata de uma esp?cie de autodocumentario de Morin, onde ele vivencia em palavras sua passagem francesa pela reconstrucao germanica

23/06/2026 04:32 Por Eron Duarte Fagundes
O Pos-Guerra de Corpo Presente

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É curioso observar como as diferentes manifestações artísticas de uma determinada época se tocam em algumas identidades. O ano zero da Alemanha (L’an zero d’Allemagne; 1946), a obra inicial do grande pensador francês Edgar Morin, é uma transposição para a literatura e as ciências sociais daquilo que o neorrealismo italiano fez no cinema; as revoluções cinematográficas daqueles anos, retratando de maneira dura e desglamurizada a miséria que as duas grandes guerras do início do século XX fizeram desabar na Europa e no mundo, foram a melhor expressão artística para o seu tempo. Mas, como se vê (ou se lê) pelo ensaio arguto de Morin (apesar da juventude do autor, ali já se pode encontrar toda a maturidade e a grandeza que explodiria nos cinco volumes de O método), a literatura não ficou imune às exigências estéticas de seu período histórico.

Curiosamente, o maior cineasta neorrelista (e talvez mesmo o maior cineasta da história), o italiano Roberto Rossellini, rodou pela mesma época um filme com um título assemelhado ao livro de Morin: Alemanha, ano zero (1947). Não há ligação direta entre as histórias e os conceitos esposados por Morin e Rossellini. A ligação possível entre livro e filme se dá num plano mais transcendente e agudo, pois tanto Morin quanto Rossellini são humanistas intransigentes e perspicazes e se valem de seu saber enciclopédico e de seus refinamentos nas respectivas áreas para darem os mais amplos retratos da condição humana neste planeta e neste tempo.

O ano zero da Alemanha é uma espécie de autodocumentário de Morin, onde ele vivencia em palavras sua passagem francesa pela reconstrução germânica. Tudo está ali, das ilusões de Morin, jovem e imaturo, às filtrações de seu gênio de observador que tentavam, um pouco em vão, desmascarar estas ilusões. No prefácio à edição brasileira, este desmascaramento se torna atroz. Mas O ano zero da Alemanha é um livro-gigante.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro ?Uma vida nos cinemas?, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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