Os Jogos de Marty

A narrativa de Scorsese se vale da mesa de sinuca como um forte elemento da dramaturgia cinematografica

28/06/2026 03:54 Por Eron Duarte Fagundes
Os Jogos de Marty

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O ator Timothée Chalamet é quem desembaraças os fios narrativos de Marty Supreme (Marty Supreme; 2025), o super-espetáculo americano dirigido  por Josh Safdie. Aos trinta anos, com seu rosto entre bebê e adolescente, Chalamet esforça-se por dar estatura estética a uma produção de sofisticação comercial que se apropria do público com suas facilidades e superfícies. Embora a ideia original seja do diretor e seu corroteirista Ronald Bronstein a partir de memórias de Marty Reisman escritas nos anos 70, o espectador pode ter a clara impressão de que o filme é composto para o estrelismo da coqueluche do momento, o intérprete Chalamet; o ator é um dos produtores da realização; seria Safdie um artesão clássico da meca do cinema, que entra mais com seus atributos técnicos?

Chalamet, em entrevistas, chegou a chamar para o debate o filme A cor do dinheiro (1986), de Martin Scorsese. É uma associação problemática. A narrativa de Scorsese se vale da mesa de sinuca como um forte elemento da dramaturgia cinematográfica. Safdie está longe disto. A mesa de tênis diante de suas câmaras é uma decoração de segundo plano; o que vemos em cena são as aventuras hormonais e difusas do jovem Marty, seu hedonismo frugal. Na primeira sequência, onde a personagem atende numa loja de sapatos, o aparecimento duma jovem cliente, Rachel, já põe o rumo das coisas: disfarçando-se, Marty e Rachel vão para os fundos da loja e, entre sapatos, fazem seu sexo furioso. Descobriremos depois: ela é amiga de infância de Marty e é casada com outro. No desenvolver do filme, a relação de Marty com Rachel ocupará boa parte da trama: ela vem a engravidar e diz que o filho é de Marty, que estará sempre às voltas com ela. Há um outro relacionamento secundário, de Marty com uma grã-fina casada, que indica o desvio da personagem para mulheres casadas.

Rachel é vivida pela desglamurizada Odessa A’zion; Kay Stone, a burguesa, está na pele duma atriz hoje não muito requisitada mas uma estrela típica, Gwyneth Paltrow, que mimetiza a si mesma interpretando uma estrela desativada momentaneamente. Os jogos de Marty em Marty Supreme são assim: o uso das mulheres e suas confusões, os jogos de tênis e suas falcatruas ocultas. Entre entregar um jogo num circo feito um jogo de tênis e deixar rolar seu fascínio por vencer, Marty transita entre Nova Iorque, Paris e finalmente Tóquio. O resultado cinematográfico é uma suprema pasteurização de filmar.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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